Combate Classista

Teoria Marxista, Política e História contemporânea.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O movimento operário russo e suas revoluções: a estratégia de 1905 e 1917


Alessandro de Moura

Resumo
            Apresentamos um breve ensaio sobre a organização do movimento operário russo no período 1905-1917. Em 1905 as mobilizações dos operários russos, lutando por melhores condições de vida e trabalho, avançaram para a formação dos Sovietes (conselhos operários). Na revolução de 1917 os sovietes ressurgiram com mais força, estabelecendo duplo poder na Rússia, dualidade esta que se estende até 25 de outubro de 1917, data que marca o inicio da implantação do governo soviético.

Palavras chave: História da Revolução Russa. Revolução de 1905. Revolução de 1917. Marxismo. Socialismo.

INTRODUÇÃO
            A Rússia do final do século XIX já possuía um grande contingente populacional, sendo que "seu primeiro senso data de 1897 - conta com 129 milhões de habitantes. Em 1914 são mais de 160 milhões". (BROUÉ, 2005, p. 9). Era um país eminentemente rural, mas portador de um importante setor industrial, que concentra cerca de um milhão e meio de operários em 1900 saltando para três milhões em 1912. (IDEM, p. 13). A concentração populacional nas cidades aumentava constantemente, o censo de 1897 apontava que a população das cidades somava 16.289.000 pessoas, aproximadamente 13% da população total da Rússia (Trotsky, 1971). Ainda, conforme complementa o historiador Victor Serge (1993): "este proletariado de oficinas e de fábricas, concentrado em alguns grandes centros, forma uma massa de 1.691.000 de homens (1904)". (SERGE, 1993, p. 40). O tzarismo convive com a indústria moderna. De acordo com Serge:
Criada recentemente, a indústria russa se desenvolve vigorosamente em condições muito peculiares. As fontes de mão de obra são ilimitadas, mas a mão de obra qualificada é rara e não há aristocracia operária privilegiada. A técnica dessa indústria de um país agrícola é, na maioria das vezes atrasada: é fácil fazer bons negócio. Em contrapartida, sua concentração atinge, sob influência do capital estrangeiro um grau ainda  mais elevado que a indústria alemã. Este capitalismo, de estrutura moderna, é entravado por instituições retardatárias de mais de um século em relação a ele. (SERGE, 1993, p. 40).
A industrialização do país foi fomentada com grande ajuda do Estado em aliança com o capital financeiro internacional, o que Lênin chamou de “via prussiana de desenvolvimento do capitalismo”. Desta forma, o período do "boom" industrial russo (1893-1902) foi também um período de imigração acelerada do capital europeu.
Enquanto o proletariado concentrava-se em contingentes enormes nas cidades, a burguesia era numericamente e politicamente fraca, isolada do povo, semi-estrangeira, sem tradições históricas, e inspirada pela possibilidade de lucro certo e rápido. A classe operária vivia sob regimes despóticos na produção, com baixíssimos salários, muitas horas de trabalho e autoritarismo patronal. Embora a indústria estivesse em expansão, tal processo decorria sem melhora significativa das condições de vida e trabalho da população trabalhadora. Conforme apontou Serge, a classe operária não podia contar com:
Nenhuma legislação trabalhista, nenhum sindicato; nenhum direito de associação, de reunião, de greve ou de palavra. Os operários, em suma não têm direito algum. A jornada de trabalho varia entre 10 a 14 horas. (SERGE, 1993, p. 40).
1905: A PRIMEIRA REVOLUÇÃO RUSSA
            Em 1905, o proletariado urbano deflagrou a primeira revolução russa. Esta foi um produto direto das condições sócio-materiais e políticas geradas durante o período da guerra russo-japonesa que se iniciou em 1904. A guerra levou milhares de soldados ao front para não os trazer de volta, somaram-se 15 milhões de mortos e feridos. (TROTSKY, 2007a). A escassez de alimentos elevou os preços e expandiu a penúria no país. A degradação das condições de vida gerava descontentamento com o governo e a guerra. A combinação destes fatores fragilizou o tzarismo preparando o terreno para a revolução de 1905.
Em 9 de janeiro de 1905 os trabalhadores russos, decidem entregar uma petição ao tzar, reivindicando melhores condições de vida e trabalho. A principal liderança era o padre Gueórgui Gapone, que, de acordo com Deutscher, havia criado "sua própria organização trabalhista para combater o socialismo clandestino". (DEUTSCHER, 2005). Conforme Serge (1993): "Gapone é uma figura singular. Parece ter acreditado sinceramente na possibilidade de conciliar verdadeiros interesses dos operários e as boas intenções das autoridades". (SERGE, p. 41). A passeata dirige-se ao Palácio de Inverno, morada do Tzar. Segundo o autor:
(...) A petição dos operários de Petersburgo a Nicolau II, redigida por Gapone e aprovada por dezenas de milhares de proletários, foi ao mesmo tempo uma dolorosa suplica e uma reivindicação audaciosa. O que, exatamente, ele pedia? Jornada de 8 horas, reconhecimento dos direitos dos operários, uma constituição (responsabilidade dos ministros perante a nação, separação entre a igreja e o Estado, liberdades democráticas). (SERGE, 1993, p. 41).
Assim, "De todos os pontos da capital, os peticionários, carregando ícones e cantando hinos religiosos, puseram-se em marcha sobre a neve, numa manhã de janeiro para ir até o "paizinho tzar" (Idem). Porém, ao invés da audiência com o imperador, "O tzar recusou-se a receber os manifestantes e mandou que os soldados que montavam guarda no Palácio disparasse contra a multidão. Isso provocou a explosão revolucionária". (DEUTSCHER, 2005, p. 148). De acordo com Victor Serge:
Em todas as esquinas havia emboscadas. A tropa os metralhou, os cossacos descarregaram as armas. "Tratem-nos como insurretos", havia dito o imperador. A fuzilaria foi particularmente intensa sob as janelas do Palácio de Inverno. Centenas de mortos, centenas de feridos, este foi o balanço da jornada. Esta repressão absurda e criminosa, dá inicio a primeira revolução russa. Este foi também - com 12 anos de antecedência - o suicídio da autocracia. (SERGE, p. 41).
Este dia ficou marcado na história da Rússia como o “Domingo Sangrento”. As conseqüências de tal ataque seriam mais profundas do que o tzar poderia calcular. Lênin, em seu Relatório sobre a revolução de 1905 registrou os acontecimentos do “Domingo Sangrento:
Milhares de operários, não social-democratas, mas crentes, súbditos fiéis do czar, conduzidos pelo padre Gapone, encaminharam-se de todos os pontos da cidade para o centro da capital, em direção à praça do Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao czar. (...). A tropa foi alertada. Ulanos e cossacos descarregam sobre a multidão com armas brancas; disparam contra os operários desarmados que ajoelhados suplicam aos cossacos que lhes permitam aproximar-se do czar. Segundo os relatórios da polícia, houve nesse dia mais de um milhar de mortos e mais de dois mil feridos. A indignação dos operários foi indescritível. (LENIN, 2007).
            De acordo com Lênin, as reivindicações dos trabalhadores no 9 de janeiro eram: “anistia, liberdades cívicas, salário normal, entrega progressiva da terra ao povo, convocação de uma Assembléia Constituinte eleita por sufrágio universal e igual”.  (IDEM). Os trabalhadores russos reivindicavam o que a classe trabalhadora de outros países já haviam conquistado há anos. Em um trecho da petição levada ao tzar, os operários suplicam para que intervenha nas relações capital-trabalho contra o despotismo patronal:
Nós, operários, habitantes de Petersburgo, dirigimo-nos a Ti. Somos escravos miseráveis, humilhados; somos subjugados pelo despotismo e o arbítrio. Com a paciência esgotada, cessamos o trabalho e pedimos aos nossos patrões que nos dessem pelo menos aquilo sem o qual a vida não passa de uma tortura. Mas isso foi-nos recusado; dizem os industriais que não está conforme com a lei. Somos milhares e, tal como todo o povo russo, estamos privados de todos os direitos humanos. Os Teus funcionários reduziram-nos à escravatura. (Apud LENIN, 2007).
A petição é concluída com um apelo ultimo ao tzar:
Senhor! Não recuses ajudar o Teu povo! Derruba a muralha que Te separa do Teu povo! Ordena que seja dada satisfação aos nossos pedidos, ordena-o publicamente e tornarás a Rússia feliz; se não, estamos prontos a morrer aqui mesmo. Só temos dois caminhos: a liberdade e a felicidade ou o túmulo. (Idem).
Segundo a perspectiva de Lênin, os trabalhadores, por meio de um ato de “retidão de gente despertada pela primeira vez para a consciência política”, acreditavam que o tzar poderia se contrapor ao patronato e a burguesia nascente da Rússia em favor do povo. Segundo o autor:
Os operários pouco conscientes da Rússia de antes da revolução não sabiam que o czar era o chefe da classe dominante, mais precisamente a dos grandes proprietários fundiários, já associados à grande burguesia por milhares de laços e prontos a defenderem pela violência, por todos os meios, o seu monopólio, os seus privilégios e os seus lucros. (LENIN, 2007).
Por isso, quando os trabalhadores se contrapunham à burguesia industrial e aos grandes proprietários fundiários, contrapunham-se imediatamente aos interesses do tzar, que por sua vez transformou um ato pacífico dos trabalhadores em um banho de sangue. Para Lênin, o operariado tirou lições importantes daquela experiência, pois o evento explicitou as relações entre o absolutismo, proprietários fundiários e a nascente burguesia. Neste processo, o operariado toma ciência de sua força coletiva. Como respostas aos fuzilamentos, uma onda potente de greves explodiu a partir de janeiro, milhares vão às ruas, dão-se novos confrontos. Lênin escreveu, no 10 de janeiro de 1905, um texto intitulado “A Revolução na Rússia” onde apontou que com o “Domingo sangrento” abriam-se novas expectativas para o jovem proletariado da velha Rússia:
A insurreição estalou. A força responde à força. Combate-se nas ruas, levantam-se barricadas, os tiros crepitam, os canhões troam. Por todo o lado, rios de sangue; a guerra civil pela liberdade teve início. Moscou, o Sul, o Cáucaso e a Polônia estão prontos para se juntarem ao proletariado de Petersburgo. A palavra-de-ordem dos operários passou a ser: a morte ou a liberdade! Muitas coisas ficarão decididas hoje e amanhã. A situação evolui de hora a hora. O telégrafo traz notícias exaltantes e as palavras parecem incapazes de dar conta da intensidade dos acontecimentos vividos. Cada um deve estar pronto a cumprir o seu dever de revolucionário e de social-democrata. Viva a revolução! Viva o proletariado insurrecto! (LÊNIN, A Revolução na Rússia, 10/01/1905).
Três dias depois, em 12 de janeiro de 1905, Lênin publica o texto O começo da revolução russa, onde denúncia a brutalidade com que as tropas atacaram os operários e suas famílias, segundo o autor a “tropa venceu os operários, as mulheres e as crianças desarmados. A tropa venceu o inimigo, metralhando os operários que jaziam por terra”. (O começo da revolução russa, 12/01/1905). Porém, mesmo com centenas de trabalhadores tombando por força das metralhadoras, os operários não recuaram, para a maior preocupação do tzar e das classes dominantes,  verifica-se a disseminação do vigor insurrecional entre o proletariado fabril, que cada vez ganha mais apoio popular.
Erguem-se os operários de Kólpino. O proletariado arma-se e arma o povo. Os operários apoderam-se, segundo se diz, do depósito de armas de Sestroretsk. Os operários munem-se de revólveres, forjam armas das suas próprias ferramentas, conseguem bombas para a desesperada luta pela liberdade. A greve geral estende-se às províncias. Em Moscou, 10.000 pessoas já abandonaram o trabalho. Está marcada para amanhã (quinta-feira 13 de Janeiro) a greve geral em Moscou. Rebentou uma revolta em Riga. Manifestam-se os operários de Lodz, prepara-se a insurreição de Varsóvia e realizam-se manifestações do proletariado em Helsingfors. Em Baku, Odessa, Kiev, Kharkov, Kovno e Vilno cresce a efervescência entre os operários e amplia-se a greve. Em Sebastopol ardem os depósitos e o arsenal do departamento da marinha, e a tropa nega-se a abrir fogo contra os marinheiros sublevados. Greve em Revel e em Sarátov. Choque armado entre a tropa e os operários e reservistas em Radom. (Idem).
O desgaste do governo frente aos operários e o povo russo é crescente. De acordo com Lênin, até mesmo Gapone, depois do Domingo sangrento, chegou à conclusão de que  “Já não temos tzar. Um rio de sangue separa o tzar do povo. Viva a luta pela liberdade!”. Lênin destacou como o ânimo do proletariado transformara-se de forma crescente de 9 de janeiro em diante:
 (...) em poucos meses, as coisas mudaram completamente. As centenas de social-democratas revolucionários passaram “subitamente” a milhares, e estes milhares tornaram-se chefes de dois a três milhões de proletários. A luta proletária suscitou uma grande efervescência, até mesmo em parte um movimento revolucionário, no fundo da massa de cinquenta a cem milhões de camponeses; o movimento camponês teve repercussão no exército e deu origem a revoltas militares, a choques armados entre as tropas. Assim um imenso país com 130 milhões de habitantes entrou na revolução; assim a Rússia adormecida se tornou a Rússia do proletariado revolucionário e do povo revolucionário (...). (LENIN, 2007).
A greve política de massas, em janeiro de 1905, atingiu a cifra de 440.000 grevistas (Lênin, 2007). Trotsky, com dados oficiais do governo russo, afirmou que até o final do ano chegou-se a mais de 1.800.000 grevistas (TROTSKI, 2007a). Lênin destacou que: "A greve de massa foi o seu agente mais poderoso. A originalidade da revolução russa está em que foi democrático-burguesa pelo seu conteúdo social, mas proletária pelos seus meios de luta". (2007). Segundo o autor, embora fosse uma revolução dirigida pelo proletariado, com "greve política de massas" e poder operário:
Foi uma revolução democrática burguesa porque o fim a que aspirava no imediato e que podia alcançar no imediato, pelas suas próprias forças, era a república democrática, a jornada de oito horas, a confiscação das imensas propriedades fundiárias da alta nobreza, tudo medidas realizadas quase inteiramente pela revolução burguesa em França em 1792 e 1793. Mas a revolução russa foi em simultâneo uma revolução proletária, não só porque o proletariado era então a força dirigente, a vanguarda do movimento, mas também porque o instrumento de luta específico do proletariado, a greve, constituiu a alavanca principal para pôr em movimento as massas e o fato mais característico da vaga crescente dos acontecimentos decisivos. (LENIN, 2007).
São Petersburgo, Riga e Varsóvia, são as cidades com número incomparavelmente mais elevado de grevistas.
O OPERARIADO RUSSO CRIA OS SOVIETS
Em meio à onda grevista de 1905, nos bairros operários eram constantes as reuniões e assembléias. No mês de julho viveu-se a revolta dos marinheiros do Encouraçado Potemkin. Em outubro, segundo Deutscher: "Com o desenvolver da greve nasceu uma instituição criada na essência da Revolução Russa: o primeiro conselho ou soviete dos Representantes dos Trabalhadores". (DEUTSCHER, 2005, p. 166). O soviete nasceu como um organismo de auto-organização para coordenar as lutas em curso, sendo que o núcleo do soviete: "foi constituído pelos grevistas de cinqüenta oficinas tipográficas que elegeram delegados e lhes deram instruções para formar um conselho. A eles juntaram-se logo delegados de outras indústrias". (DEUTSCHER, 2005, p. 166). Esses representantes operários orientaram os demais trabalhadores para que enviassem delegados para apresentar suas reivindicações na primeira assembleia do soviete que seria realizada em 13 de outubro de 1905. De acordo com Broué:
Desde o ponto de vista dos historiadores, o fato capital da história da revolução russa é, sem dúvida alguma, o surgimento dos sovietes, graças aos quais triunfaram, em 1917, tanto a revolução proletária como o partido bolchevique. (BROUÉ, 2005, p. 80).
Por meio dos sovietes, o proletariado afirmou-se como um sujeito político coletivo. Trotsky, que em 1905 foi presidente do Soviete de São Petersburgo (que a partir de 1914 passa a se chamar Petrogrado), no livro Balanço e perspectivas (1971), considerou que os sovietes “eleitos pelas massas e responsáveis perante elas, são incontestáveis instituições democráticas, fazendo a mais resoluta política de classe no espírito do socialismo revolucionário”. (TROTSKY, 1971). Os trabalhadores e trabalhadoras criavam órgãos importantes de contra-poder e assim estabeleceram bases orgânicas para uma força revolucionária ativa e progressiva, isto colocava o proletariado como vanguarda objetivamente autônoma em combate aos limites político-sociais impostos pelo tzarismo e a burguesia. Em A revolução de 1905, Trotsky analisou que:
Depois do 9 de Janeiro a revolução demonstrou que controlava a consciência das massas trabalhadoras. A 14 de julho, por meio da insurreição a bordo do Potemkin Tavritcheski, a revolução demonstrou que podia tornar-se uma força material. Mediante a greve de outubro demonstrou que podia desorganizar o inimigo, paralisar sua vontade e reduzi-lo à mais completa humilhação. Por último, organizando sovietes de trabalhadores em todo o país, a revolução demonstrou que era capaz de criar órgãos de poder. O poder revolucionário só pode se apoiar numa força revolucionária ativa. Quaisquer que sejam os pontos de vista quanto ao desenvolvimento posterior da revolução russa, o fato é que nenhuma classe social, salvo o proletariado, mostrou-se até hoje capaz e disposta a apoiar o poder revolucionário. (TROTSKY, 1975).
Os sovietes afloram nos bairros proletários, sendo que o soviete mais importante foi o de São Petersburgo, cidade com grande concentração operária, mas sua influência direta e indireta estendia-se ainda sobre outras frações importantes do proletariado, como operários da construção, garis, trabalhadores não-profissionalizados, cocheiros etc. Também frações da classe média e da intelectualidade tornaram-se simpáticos aos sovietes. No dia 13 de outubro de 1905 foi realizada a primeira Assembléia Constituinte do Soviete de São Petersburgo. Conforme se lê em A revolução de 1905:
À primeira reunião assistiram umas poucas dúzias de pessoas; na segunda metade de novembro o número de deputados se havia elevado a 562, incluindo seis mulheres. Essas pessoas representavam 147 fábricas e usinas, 34 oficinas e 16 sindicatos. O núcleo principal de deputados - 351 pessoas - pertencia aos trabalhadores metalúrgicos, que desempenharam um papel decisivo no Soviete. Havia 57 deputados da indústria têxtil, 32 das indústrias de artes gráficas e de papel, 12 dos atendentes do comércio e 7 dos escritórios e do comércio farmacêutico. O comitê executivo agia como ministério do Soviete. Formou-se a 17 de outubro e estava composto por 31 pessoas: 22 deputados e 9 representantes de partidos (6 das duas facções social-democratas e 3 dos socialistas revolucionários). (TROTSKY, 1975).
Durante 50 dias (de 13 de outubro a 6 de dezembro de 1905) os sovietes controlam bairros inteiros. Trotsky analisando o significado dos sovietes considera que “era verdadeiramente um governo dos trabalhadores em embrião”. Isso porque: “O Soviete organizou as massas trabalhadoras, dirigiu as greves e manifestações políticas, armou os trabalhadores e protegeu a população contra os pogroms”. (Idem, 1975). Assim, esse organismo de auto-organização:
(...) Na luta pelo poder aplicou métodos naturalmente determinados pela natureza do proletariado como classe: seu papel na produção, seu amplo número, sua homogeneidade social. Mais ainda, o Soviete coordenou sua luta pelo poder como cabeça de todas as forças revolucionárias, dirigindo a atividade de classe espontânea das massas trabalhadoras de muitas maneiras diferentes; não só estimulou a organização de sindicatos, como interveio em disputas entre trabalhadores individuais e seus patrões. Precisamente porque o Soviete - o corpo democrático representativo do proletariado num momento de revolução - se situou no ponto de encontro de todos seus interesses de classe, imediatamente ficou sob a influência determinante do partido social-democrata. (TROTSKY, 1975).
As greves gerais políticas criaram fatos políticos importantes que avançaram para além do local de trabalho. Envolvendo amplas massas na cidade o proletariado auto-organiza-se em direção ao controle da produção social, buscam controlar as fábricas, o local de trabalho, e os bairros, local de residência dos trabalhadores, que em circunstancias comuns também é organizado pelas classes dominantes.
Mediante a pressão da greve o Soviete ganhou a liberdade de imprensa. Organizou patrulhas de rua regulares para garantir a segurança dos cidadãos. Em maior ou menor medida tomou em suas mãos os serviços postais e telegráficos e as estradas de ferro. Interveio com autoridade em disputa de caráter econômico entre trabalhadores e capitalistas. Realizou uma tentativa de introduzir a jornada de trabalho de oito horas mediante uma pressão revolucionária direta. Ao paralisar a atividade do Estado autocrático mediante a greve insurrecional, introduziu sua própria ordem democrática livre na vida da população urbana trabalhadora. (TROTSKY, 1975).
Centrado na organização operária de base, os sovietes constituíam o primeiro experimento democrático do proletário russo. Por meio das assembléias e plenárias como a eleição direta de delegados revogáveis, praticava-se a “democracia autêntica”. Segundo o autor:
Com o Soviete vemos pela primeira vez o aparecimento do poder democrático na história russa moderna. O Soviete é o poder organizado da própria massa sobre suas partes separadas. Constitui a democracia autêntica, sem uma câmara alta e uma câmara baixa, sem uma burocracia profissional, mas com o direito dos votantes de trocar seus deputados a qualquer momento. Através de seus membros - deputados eleitos diretamente pelos trabalhadores o Soviete exercita a liderança direta de todas as manifestações sociais do proletariado como totalidade e de seus grupos individuais, organiza suas ações e lhes proporciona um lema e uma bandeira. (TROTSKY, 1975).
Mesmo a burguesia liberal se viu obrigada a apoiar os sovietes "Colaboraram em greves e manifestações, adotaram uma atitude amistosa em relação aos revolucionários, só os criticaram morna e cautamente”. (1975). Esse apoio dura apenas até 17 de outubro. Após esta data, a burguesia busca unificar-se contra os sovietes. O patronato criou a "União Anti-Revolucionária do 17 de outubro". Porém a disposição dos Sovietes estava evoluindo em sentido contrário aos desejos da burguesia. O proletariado confiscou armas e suprimentos para sustentar os sovietes, e assim assegurar a manutenção das posições já conquistadas, de acordo com Trotsky,
Nas estações de Moscou vimos os operários tomar armas que estavam sendo transportadas para algum teatro de operações distante. Ações similares ocorreram em muitos lugares. Na região do Kuban os cossacos insurgentes interceptaram um transporte de rifles. Soldados revolucionários entregaram munições aos insurgentes, etc. (TROTSKY, 1975).
Por meio dos sovietes, o proletariado russo provou-se capaz de aglutinar em torno de si, não apenas multidões de trabalhadores das cidades, mas também camponeses e estudantes. Assim, o operariado russo se fez vanguarda sócio-política na prática. De acordo com Broué:
Para todos os social-democratas russos, a revolução de 1905 foi uma revolução burguesa quanto a seus principais objetivos, a saber, a eleição de uma assembléia constituinte e a instauração de liberdades democráticas. Porém, fica evidente que tal revolução burguesa foi levada a cabo integralmente pela classe operária, com seus instrumentos de classe, suas manifestações de rua e suas greves, sendo o resultado da insurreição dos operários de Moscou. (...). (BROUÉ, 2005, p. 77).
Isso confirmava à Lênin força do proletariado do país: "Os melhores elementos da classe operária marchavam à cabeça, arrastando os indecisos, despertando os adormecidos e galvanizando os fracos". (LENIN, 2007). No entanto, no dia 3 de dezembro de 1905 as tropas do governo cercaram uma reunião do Soviete, que resistiu durante 9 longos dias.  De acordo com Lênin, em Moscou:
(...) um pequeno número de insurrectos, operários organizados e armados – não eram mais de oito mil – resistiu durante nove dias ao governo do czar. Este não se podia fiar na guarnição de Moscou; pelo contrário, teve de mantê-la fechada, e foi só com a chegada do regimento Semionovski, chamado de Petersburgo, que pôde reprimir o levantamento. (LENIN, 2007).
A partir disto, o governo avançou progressivamente na batalha para destruição de todas as organizações revolucionárias criadas entre outubro e novembro, até a derrota da revolução. Os revolucionários sobreviventes lotaram a Prisão de Pedro e Paulo. De acordo com Serge (1993): "A primeira revolução russa custou ao povo russo cerca de 15.000 mortos, mas de 18.000 feridos e 79.000 prisioneiros. (Idem, p. 46). De acordo com o autor Serge:
A autocracia foi salva, em 1905, pelas hesitações e pelo espírito reacionário da burguesia liberal, as hesitações das classes médias revolucionárias, a inexperiência e a falta de organização do proletariado (nem nem devotamento nem a solidariedade puderam substituí-la), a fraqueza do partido proletário, o caráter elementar dos movimentos no campo, a fidelidade relativa da tropa e a intervenção do dinheiro francês. (SERGE, 1993, p. 46).
A revolução de 1905 contribuiu para dissipar ilusões do proletariado com o regime tzarista. Assim: "A derrota da primeira revolução russa estava longe de ser completa. As massas operárias e camponesas tinham perdido o respeito pela autocracia e prendido a se confrontar com a opressão". (Idem, 1993, p. 46). As experiências vividas, percebidas e compartilhadas pelo proletariado russo possibilitou um cumulo político importantíssimo tanto para o operariado como para o Partido Bolchevique.
Mesmo depois da repressão tzarista, as greves políticas continuaram eclodindo na Rússia, ainda que de forma decrescente, até 1910. Trotsky, no livro A história da Revolução Russa (2007a), reuniu dados do governo russo sobre as greves, segundo o autor, a repressão foi implacável e continua de 1905 a 1907. Com isso, o número de greves políticas diminuiu vertiginosamente até 1910. A partir deste ano inicia-se outro ciclo de massificação das greves políticas progressivo até 1914.
Trotsky considerava, que a revolução de 1905 cumpriu papel essencial para o desenvolvimento da classe operária russa e para todo o proletariado mundial. A nascente classe operária russa, que fizera sua primeira experiência política independente naquele ano ainda era muito fraca para tomar o poder, porém esta revolução teria sido um ensaio geral para a revolução de 1917. Nas palavras do autor: "O proletariado chegou ao poder em 1917 com a ajuda da experiência adquirida pela geração de 1905". (TROTSKY, 1971). Lênin expressa opinião similar em março de 1917, na primeira Carta de longe:
Sem os três anos de formidáveis batalhas de classe e a energia revolucionária do proletariado russo, em 1905-1907, seria impossível uma segunda revolução tão rápida, no sentido de ter concluído a sua etapa inicial em poucos dias. A primeira revolução (1905) resolveu profundamente o terreno, arrancou pela raiz preconceitos seculares, despertou para a vida política e para a luta política milhões de operários e dezenas de milhões de camponeses, revelou umas às outras, e ao mundo inteiro, todas as classes (e todos os partidos principais) da sociedade russa na sua verdadeira natureza, na verdadeira correlação dos seus interesses, das suas forças, das suas formas de ação, dos seus objetivos imediatos e futuros. A primeira revolução, e a época contra-revolucionária que se lhe seguiu (1907-1914), revelaram toda a essência da monarquia tzarista, levaram-na até o “último limite”, puseram a nu toda a podridão e infâmia, todo o cinismo e corrupção da corja tzarista com esse monstro, Raspútine, à frente, toda a brutalidade da família Románov (...). (LENIN, Carta I, 2005).
IMPACTOS DA REVOLUÇÃO DE 1905 SOBRE O POSDR
O Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), que em 1905 contava com cerca de 13.000 membros (SERGE, 1993, p. 46), era o partido dos marxistas russos, frente à conjuntura e o desenvolvimento social do país diagnosticava a inevitabilidade da insurgência de um processo revolucionário na Rússia tzarista.
Colocava-se ao Partido, em um marco estratégico, qual papel a revolução deveria cumprir na Rússia, e ainda, em quais alianças de classe se deveria apoiar a revolução democrático-burguesa. Três posições se chocavam dentro do Partido: a da corrente Mencheviques, a dos bolcheviques e a de Trotsky. Lembremos, conforme denotou Broué, que Trotsky, foi presidente do soviete de Petrogrado em 1905 e o único dirigente do POSDR que desempenhou papel importante na revolução de 1905. (2005, p. 79).
Para os mencheviques a burguesia liberal é que deveria dirigir a revolução, com apoio do proletariado e dos camponeses. Dever-se-ia lutar contra o inimigo comum: o tzarismo e os elementos feudais. De acordo com Deutscher, os mencheviques defendiam que, "como a revolução tinha caráter burguês, dirigida contra o absolutismo e os restos do feudalismo, e não visando o socialismo, a burguesia, e não o proletariado, era o herdeiro legitimo do poder". (DEUTSCHER, 2005, p. 149). Nesse cenário, os mencheviques, por fora do governo burguês, pressionariam para que realizasse as reformas democráticas. (BROUÉ, 2005, p. 83: DEUTSCHER, 2005, p. 149). Então, para os mencheviques, em 1905: "Os socialistas (...) não podiam participar de nenhum governo burguês, nem mesmo no governo nascido de uma revolução. Sua tarefa era defender, na oposição, os interesses da classe operária". (DEUTSCHER, 2005, p. 149).
Com isto, se poderia criar condições mais favoráveis para a luta do proletariado, nas palavras de Trotski em As três concepções da revolução russa, para os mencheviques o proletariado deveria conquistar sua "liberdade política juntamente com a burguesia liberal. Então, após muitas décadas, num alto nível de expansão capitalista, entraria no rumo da revolução socialista em conflito direto com a burguesia". (TROTSKY, 1980).
A segunda concepção sobre a revolução era a dos bolcheviques, estes recusavam firmemente admitir que a burguesia russa fosse capaz de levar a cabo a sua própria revolução, ainda, defendiam que a burguesia russa era hostil a expropriação da terra sob posse da aristocracia fundiária. Por isso, para os bolcheviques, a tarefa central era lutar por um governo de trabalhadores e camponeses que pudesse impor uma revolução democrática contra a monarquia e os resquícios feudais. De acordo com Deutscher: "Lênin concordava que a revolução era burguesa na medida em que não podia visar o socialismo. Não acreditava, porém na missão revolucionária da burguesia". (DEUTSCHER, 2005, p. 149). Lênin destacava que a burguesia liberal, uma vez chegando ao poder, não realizaria as demandas dos camponeses pobres e do proletariado industrial. Segundo Serge:
(...) Os bolcheviques censuravam seus adversários por se colocarem a reboque das classes ricas; o proletariado, diziam eles, deveria se colocar no comando da sublevação popular; a revolução burguesa somente se completaria pela "ditadura democrática dos operários e camponeses", cujas conquistas permitiriam ao proletariado caminhar, em seguida, em direção ao socialismo. A idéia central de Lênin era que não poderia mais haver uma revolução puramente burguesa, dada a existência de um proletariado numeroso, poderoso e consciente. (...). (SERGE, 1993, p. 43).
Para Lênin, apenas uma ditadura democrática do proletariado e dos camponeses possibilitaria quebrar a resistência dos nobres, da grande burguesia e do tzarismo, minando com isto as forças contra-revolucionárias, e assim, realizar transformações profundas na sociedade russa. De acordo com Trotsky: “À idéia plekhanovista de união entre o proletariado e a burguesia liberal, Lênin contrapunha a idéia de união entre o proletariado e o campesinato” (TROTSKY, 1980).
Lênin destacava que os camponeses pobres, proletários do campo, constituíam a maioria no país e viviam em condições paupérrimas, por isso eram aliados estratégicos no processo revolucionário. (LENIN, 1980: 1980b). Nesta “fórmula algébrica da revolução”, apontava que, sem dividir o poder com os camponeses, a base proletária do processo revolucionário seria muito reduzida.
A terceira concepção acerca da revolução era a de Leon Trotsky, embora considerasse que “A concepção de Lênin representava um passo formidável para frente, partindo, como o fazia, da transformação agrária e não das reformas constitucionais, como tarefa central da Revolução, indicando a única combinação realista de forças sociais capaz de levá-la a efeito”. (TROTSKY, 1980). Trotsky insistia que a revolução deveria ser realizada com a direção do proletariado, apoiado pelos camponeses. A ditadura deveria ser do proletariado, e não operária-camponesa. O proletariado deveria tomar o poder e realizar as demandas democráticas burguesas de forma permanente, transformando a revolução democrática em revolução socialista. (TROTSKY, 1980). Nesse sentido, Deutscher destacou que Trotsky:
(...) Concordava com os bolcheviques em que a burguesia russa era incapaz de liderança revolucionária e que a classe trabalhadora industrial era talhada para o papel. Foi então mais longe ainda e argumentou que a classe trabalhadora seria obrigada, pela sua supremacia política na revolução, a levar esse movimento da fase burguesa para a socialista antes mesmo que a comoção social tivesse começado no Ocidente. Seria esse um dos aspectos da "permanência" da revolução - seria impossível confinar a comoção aos limites burgueses. (DEUTSCHER, 2005, p. 195). 
Por isso, para Trotsky, apenas o "proletariado podia dar aos camponeses um programa, uma bandeira e uma direção". (TROTSKY, 2007a, p. 28). Problematizando a questão, argumentava que se deveria levar em conta: a dispersão territorial dos camponeses, sua dificuldade de auto-organização em organismos democráticos independentes dos camponeses ricos, a dependência em relação às cidades e também as relações dos camponeses a propriedade privada, como produção particularizada. Destacou que Partido Camponês, Socialista Revolucionários - SR - (1901-1923), era dirigido pelos camponeses ricos e intelectuais pequeno-burgueses.
O fato dos camponeses não se auto-organizarem também obrigava-os a seguir as classes que se auto-organizavam. Assim, necessariamente, seguiria a burguesia ou o proletariado. Os kulaks (camponeses ricos) defendiam aliança com a burguesia liberal, enquanto os camponeses pobres pautavam-se tendo como horizonte o proletariado urbano. Para Trotsky, “Nestas circunstâncias, o campesinato, como um todo, seria incapaz de empurrar as rédeas do governo”. Posto tudo isso, para Trotsky, o aliado estratégico do proletariado russo não era outro senão o proletariado europeu (confira: TROTSKY, 1971: TROTSKY, 1980). Estas três concepções da revolução russa foram postas a prova durante os processos revolucionários de 1917.

SOBRE AS REVOLUÇÕES DE 1917
Na História da revolução russa, Trotsky apontou que: "No início do sec. XX, a Rússia tinha cerca de 150 milhões de habitantes, dos quais mais de 3 milhões se concentravam em Petrogrado e Moscou". (TROTSKY, 2007a, p. 26). Essas cidades, de maior densidade operária, serão centro nervoso do novo processo revolucionário. Com o inicio da 1ª Guerra Mundial a escassez de alimentos novamente produz revolta na classe trabalhadora. Camponeses se vêem obrigados a vender suas terras e migrar para as cidades em busca de trabalho. Conforme Broué:
Com o ano de 1917, se inicia uma nova era. A guerra torna aguda, em todos os países, as contradições, afetando profundamente a estrutura política e econômica. O prolongamento da matança suscita sentimentos de rebeldia. Os jovens se sublevam contra a guerra, flagelo de sua geração, que todos os dias engole centenas deles, e este é o sentimento das famílias as quais mutila. Na Alemanha, na França na Rússia, em todos os países beligerantes, aparecem os primeiro sintomas de uma agitação revolucionária. Como o próprio Lênin havia previsto, o cortejo de sofrimentos que acompanha a guerra imperialista põe na ordem do dia sua transformação em guerra civil, inclusive quando a luta se inicia sob a bandeira do pacifismo. (BROUÉ, 2005, p. 91).
No dia 23 de fevereiro de 1917, dia da mulher, as mulheres russas vão às ruas reivindicando pão e o fim da guerra. No dia seguinte o movimento multiplica-se por dois, tomando as ruas. Estas mobilizações combinaram-se com greves operárias, sendo que no dia 25 a greve generalizou-se, 240 mil operários estão nas ruas. (TROTSKY, 2007a, p. 118). Este amplo movimento derrubou o Estado absolutista dos Romanov dirigido por Nicolau II. "No dia 25 o Partido Bolchevique chama a greve geral, mas é surpreendido por um levante armado desencadeado pelo proletariado, o partido fora arrastado pelo movimento". (TROTSKY, 2007a, p. 121). Desta forma, "A revolução de fevereiro de 1917, chamada 'insurreição anônima', foi um levante espontâneo das massas, surpreendendo a todos, inclusive os bolcheviques". (BOUÉ, 2005, p. 93).
No dia 26, um domingo, o operariado marchou das periferias para o centro. A polícia abre fogo contra as mobilizações assassinando 40 pessoas. Isso gera revolta dentro do exército, parte dos soldados decidem unirem-se aos operários. No dia 27 de outubro uma multidão liberta os presos políticos de vários cárceres da capital russa. A revolução de fevereiro tinha Petrogrado como centro, mas o restante da Rússia aderia à ação. Depois de tomar Petrogrado e Moscou, a revolução segue conquistando outras cidades no mês de março. (TROTSKY, 2007a, p. 135).  De acordo com Serge:
A revolução surge nas ruas, descendo das fábricas com milhares de operários grevistas, aos gritos de "Queremos pão! Queremos pão!". Impotentes, as autoridades os viam chegar. Evitar a crise não estava ao alcance. A confraternização das tropas com as manifestações operárias nas ruas de Petersburgo levou a cabo a queda da autocracia (25-27 de fevereiro de 1917). A rapidez dos acontecimentos surpreende as organizações revolucionárias, embora tenham estado trabalhando em sua preparação. (SERGE, 1993, p. 52).
O proletariado russo, que já era portador das experiências de 1905 e das greves políticas radicalizadas que eclodiram de forma crescente desde 1914, afirma-se como poderoso sujeito político coletivo, capaz de varrer a velha ordem tzarista. Conforme sintetizado por Trotsky:
Surgindo "espontaneamente" da indignação universal, de protestos, manifestações, greves e lutas de rua dispersas, uma insurreição pode arrastar parte do Exército, paralisar as forças do inimigo, e derrubar o antigo poder. Num certo grau, foi isto que aconteceu em fevereiro de 1917 na Rússia. (TROTSKY, 2007a, p. 932).
A burguesia e seu parlamento (Duma), não sabiam como agir, ficaram atônitos sem controle da situação, não sabiam quem deveria assumir o poder. A solução foi um governo de coalizão, hegemonizado pela burguesia liberal articulada com os Mencheviques, Socialistas Revolucionários (SR) e cadetes. De acordo com Trotsky: "A Revolução de Fevereiro danificara consideravelmente o antigo aparelho, e essa herança o Governo Provisório era incapaz de renovar ou revigorar". (TROTSKY, 2007b, p. 106). Segundo Deutscher:
(...) A revolução começara onde se detivera em 1905, mas seu ponto de partida ficara muito para trás. O tzar e os ministros ainda eram prisioneiros do Estado, mas para a maioria de seus antigos súditos representavam apenas fantasmas de um passado remoto. Os esplendores, terrores e fetiches seculares da monarquia pareciam ter desaparecido como a neve do último inverno. (DEUTSCHER, 2005, p. 309).
Frente ao Governo Provisório, os operários e camponeses pobres, sujeitos insurretos, continuavam apartados do poder de decisão político e econômico. Assim, não aceitaram a consolidação da democracia burguesa pactuada em 6 de maio. Conforme registrou Serge:
Um ministério de coalizão (burgueses liberais-cadets-encheviques, socialistas-revolucionários), presidido por Kerenski. formava-se no princípio de maio. Seu programa resume-se em duas palavras: democracia e constituinte. Revela-se impotente para combater a crise econômica, pois para isso  seriam necessárias medidas enérgicas que não se podem tomar sem prejudicar a burguesia. (SERGE, 1993, p. 53).
A revolução de fevereiro derruba a monarquia, mas o mesmo tempo, essa mesma revolução recusa-se a submeter-se a burguesia liberal. Por sua vez, o proletariado novamente faz dos sovietes uma forma de governo paralelo. Por meio dos conselhos estabelece-se novamente um duplo poder na Rússia, sovietes operários convivem ao lado do parlamento burguês-liberal. No entanto, "Os mencheviques e os socialistas revolucionários (S.R) ostentam a maioria nos primeiros sovietes e no primeiro congresso pam-russo". (BROUÉ, 2005, p. 93).
Os Mencheviques, para compor o governo Provisório, mudaram sua concepção em relação à posição de 1905, quando ficaram fora do governo, como oposição, pressionando para a realização das demandas democráticas do proletariado e dos camponeses. Em 1917, compõem o governo provisório em conjunto com os liberais constitucionalistas, mesmo sabendo que o Governo Provisório apoiava-se em aliança com as potencias imperialistas do eixo Inglaterra-França contra Alemanha. De acordo com análise de Broué, os Mencheviques:
(...). Em conformidade com suas análises, não buscam lutar pelo poder. Em sua opinião, somente um poder burguês pode ocupar o lugar do czarismo, convocar eleições para a assembléia constituinte e negociar a paz democrática sem anexações. Ao seu ver, os sovietes foram o instrumento operário da revolução democrático-burguesa e, na república burguesa devem continuar constituindo posições da classe operária. Contudo, não consideram em absoluto a possibilidade de exigir um poder para o qual a classe operária ainda não está capacitada para exercer e que, segundo eles, deverá exigir posteriormente para si, conforme as exigências de uma revolução espontânea que os socialistas devem tomar cuidado de "forçar". Lênin resumirá tal atitude como se equivalesse de fato a uma "entrega voluntária do poder de estado à burguesia e a seu governo provisório". (BROUÉ, 2005, p. 94).
Os bolcheviques recusaram-se a participar do Governo Provisório. Lênin, em 7 de março de 1917, exilado na Alemanha, por meio das Cartas de longe, era enfático “Quem diz que os operários devem apoiar o novo governo no interesse da luta contra a reação do tzarismo (...) é um traidor dos operários, um traidor à causa do proletariado, à causa da paz e da liberdade”. (LENIN, 2005). Defendia que o Partido Bolchevique não deveria participar nem apoiar o Governo Provisório, nas palavras do autor:
(...) não são os operários que devem apoiar o novo governo, mas este governo que deve “apoiar” os operários! Pois a única garantia de liberdade e da destruição do tzarismo até ao fim é armar o proletariado, é consolidar, alargar, desenvolver, o papel, a importância e a força do Soviete de Deputados Operários. (LENIN, 2005).
Tendo como norte a fórmula algébrica de Lênin de 1905, de ditadura democrática dos operários e dos camponeses, o Partido Bolchevique reivindicava em 1917, a constituição de um regime democrático, dirigido por uma aliança entre o proletariado e os camponeses para realizar as demandas democráticas. No entanto, a partir de 13 de março, sob diretivas de Stalin e Kamenev, os bolcheviques adotam "a tese dos mencheviques segundo a qual é preciso que os revolucionários russos prossigam na guerra para defender suas recentes conquistas democráticas da agressão do imperialismo alemão". (BROUÉ, 2005, p. 95). Para Stalin, a função dos sovietes, naquele momento, era apoiar o governo provisório. (Idem). Porém, para Lênin, tratava-se de lutar pela tomada do poder pelo proletariado.
(...) Desde que recebeu as primeiras notícias da Rússia, Lênin ficou muito alarmado pelos indícios de conciliação que observa na política bolchevique. Desde Zurique dirige quatro cartas ao Pravda - as chamadas "Cartas de longe"- nas quais afirma que é necessário constituir uma milícia operária cuja missão haverá de ser converter-se em órgão executivo do soviete, ademais a que preparar de imediato a revolução proletária, denunciar os tratados de alianças com os imperialistas, negar-se frontalmente a cair nas armadilhas do "patriotismo" e tratar de conseguir a metamorfose da guerra imperialista em guerra civil. Somente a primeira das quatro cartas será publicada, pois os dirigentes bolcheviques, assustados pelo caráter radical deste ponto de vista preferem supor que Lênin está mal informado. A única solução que lhe resta é voltar à Rússia por qualquer meio para convencer seus companheiros. (BOUÉ, 2005, p. 96).
Na terceira carta de longe (11 de Março de 1917), Lênin afirmou que a revolução começou como democrático-burguesa e que só o proletariado poderia conduzi-la ao socialismo (transcrescimento da revolução). Nas palavras do revolucionário:
(...) a revolução de Fevereiro-Março foi apenas a primeira etapa da revolução. A Rússia atravessa um momento histórico peculiar de transição para a etapa seguinte da revolução ou, segundo a expressão de Skóbelev, para a ‘segunda revolução’. (LENIN, Carta III, 2005).
 Apenas a direção do proletariado poderia realizar as demandas históricas do povo russo, por isso, tratava-se de lutar pela construção do governo proletário “A república proletária, apoiada pelos operários agrícolas e pela parte mais pobre dos camponeses e dos citadinos, é a única que pode assegurar a paz, dar o pão, a ordem, a liberdade”. (LENIN, Carta II, 2005). Desta forma, segundo Broué: "O retorno de Lênin, no dia 3 de abril, vai alterar profundamente a situação nas fileiras bolcheviques e, mais adiante, no processo revolucionário". (p. 96). Com sua chegada à Rússia, ao invés de se apoiar o governo provisório, o Partido passou a defender uma revolução proletária.
Para o revolucionário russo, se o proletariado estivesse organizado de forma estruturada, não teria sido possível nem a ascensão ao poder pela burguesia após a revolução de fevereiro e formação do governo burguês. Se estivesse suficientemente organizado, o poder já estaria nas mãos do proletariado. Nas Teses de abril, Lênin enfatiza:
A peculiaridade do momento atual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para a sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato. (LENIN, 2005).
Dois elementos convenceram Lênin que a ditadura deveria ser do proletariado, mas com apoio dos camponeses: o desenvolvimento da guerra e os sovietes de deputados operários. Estes elementos transformaram a luta democrática em luta socialista, segundo conceito de Lênin houve o transcrescimento da revolução democrática em revolução socialista. A revolução democrática, protagonizada pelo proletariado urbano, deu inicio a uma revolução socialista. Nesse sentido, a revolução democrática foi fundida com a luta pela revolução socialista. Desta forma, Lênin fizera dois movimentos: 1) convencer o Partido Bolchevique a mudar sua atuação, pois era preciso ter claro que apenas o operariado poderia realizar a revolução burguesa por meio de uma ditadura proletária. 2): convencer o proletariado a tomar o poder e estabelecer um governo proletário.
Buscando dissipar qualquer esperança do proletariado com o Governo Provisório, Lênin ataca-o firmemente, enfatizando que este “não pode dar ao povo nem paz, nem pão, nem liberdade”. O Governo Provisório não pode assegurar a paz, pois não rompe nem com a monarquia nem com a guerra, defende que a guerra é a forma de assegurar as conquistas da revolução proletária de fevereiro. Para Lênin, o proletariado que tivera papel central durante a revolução de fevereiro, ainda não havia esgotado suas forças revolucionárias, porém se seguissem os mencheviques e Socialistas Revolucionários, aceitando o governo burguês de coalizão, perder-se-ia todo o ascenso revolucionário. Na primeira carta de longe (7 de março) firmava que:
(...) “a palavra de ordem”, a “tarefa do dia”, neste momento, deve ser: operários, vós realizastes prodígios de heroísmo proletário e popular na guerra civil contra o tzarismo, deveis agora realizar prodígios de organização proletária de todo o povo para preparar a vossa vitória na segunda etapa da revolução. (LENIN, 2005).
Para a tomada do poder das mãos do Governo Provisório e consolidação do Estado Operário, o proletariado tinha dois aliados: os camponeses pobres e o proletariado internacional. Nas palavras do autor:
Com estes dois aliados, o proletariado pode avançar e avançará, utilizando as particularidades do atual momento de transição, à conquista primeiro da república democrática e da vitória completa dos camponeses sobre os latifundiários, em lugar da semimonarquia de Gutchkov e Miliukov, e depois para o socialismo, o único que dará aos povos exaustos pela guerra, a paz, o pão e a liberdade. (LENIN, Carta III, 2005).
Na segunda Carta de longe (9 de março de 1917), Lênin defende o armamento do proletariado como forma de assegurar as conquistas da revolução de fevereiro e a marcha para o governo operário. Era necessária:
(...) a criação de uma milícia de todo o povo, dirigida pelos operários, que é a palavra de ordem correta do dia, que corresponde às tarefas táticas do peculiar momento de transição que a revolução russa (e a revolução mundial) está a atravessar, e por outro lado que para o êxito desta milícia operária ela deve ser, em primeiro lugar, de todo o povo, de massas até ser universal, abarcar realmente toda a população de ambos os sexos apta para o trabalho: em segundo lugar, ela deve passar à combinação de funções não apenas policiais, mas estatais gerais, com funções militares e com o controle da produção e distribuição social dos produtos. (LENIN, Carta II, 2005).
Havia de se criar uma forma de governo baseada na participação direta do operariado a partir dos sovietes, com apoio dos camponeses. O Partido bolchevique não estava seguro que o proletariado pudesse sustenta-se no poder, mas Lênin insiste. Segundo Serge:
Chegando a Petrogrado a 3 de abril de 1917, Lênin, após haver retificado a posição política  do órgão central do partido, define em seguida os objetivos do proletariado e recomenda incansavelmente aos militantes a conquista, por persuasão, das massas operárias. (SERGE, 1993, p. 59).
Nesse dia, ainda na estação de trem, Lênin discursa em defesa da revolução socialista e contra o governo provisório. Conforme escreveu Trotsky em Lições de outubro: "O discurso de Lênin na estação Finlândia sobre o caráter da Revolução Russa foi como uma bomba para muitos dirigentes do Partido". (TROTSKY, 2007b, p. 49).
Nas Teses de abril (7 de abril de 1917), Lênin afirmava que a luta deveria ser pela “passagem do poder para as mãos do proletariado e dos setores pobres do campesinato que a ele aderem”. Sua síntese ficou gravada na história “todo o poder aos sovietes!”. (LENIN, 2005). Além da luta irredutível contra o defensismo e os defensistas, suas teses preconizavam: "conquista da maioria nos sovietes; derrubada, por seu intermédio, do Governo Provisório; política revolucionária de paz; programa de revolução socialista no interior e de revolução internacional no exterior. (TROTSKY, 2007b, p. 52). Na perspectiva de Lênin, para se atuar de forma precisa durante este período, era necessário, conforme o item 4º da Teses de abril:
Reconhecer o fato de que, na maior parte dos Sovietes de deputados operários, o nosso partido está em minoria, e, de momento, numa minoria reduzida, diante do bloco de todos os elementos oportunistas pequeno-burgueses, sujeitos à influência da burguesia e que levam a sua influência para o seio do proletariado, desde os socialistas-populares e os socialistas-revolucionários até ao CO (TchkheídzeTseretéli, etc), Steklov, etc. (LENIN, 2005).
Além disso, a atuação do Partido Bolchevique nos sovietes, mesmo em minoria, deveria ter um caráter educativo, para que o proletariado tirasse lições qualitativas para a nova fase que se abria, nas palavras de Lênin nas Teses:
Enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, defendendo ao mesmo tempo a necessidade de que todo o poder de Estado passe para os Sovietes de deputados operários, a fim de que, sobre a base da experiência, as massas se libertem dos seus erros. (LENIN, 2005).
O Partido Bolchevique deveria tomar como tarefa "desmascarar" o Governo Provisório e “explicar a completa falsidade de todas as suas promessas, sobretudo a da renúncia às anexações. Desmascaramento, em vez da "exigência" inadmissível e semeadora de ilusões de que este governo, governo de capitalistas, deixe de ser imperialista”. (LENIN, 2005).
Em síntese, as propostas centrais das teses de Lênin consistiam em: transformar a 1ª Guerra Mundial numa guerra do proletariado internacional contra a burguesia, com renúncia das anexações; tomada do poder pelo proletariado seguida pelos camponeses; armamento geral do povo; criação de um exercito proletário a partir dos sovietes; supressão da policia e do funcionalismo público; confiscação das terras dos latifundiários com conseqüentes nacionalização das terras e criação de Sovietes de deputados dos camponeses pobres, e, por fim, a fusão de todos os bancos do país num banco nacional único e introdução do controle por parte dos Sovietes de Deputados Operários. Era um programa transicional para superar o governo provisório de forma progressiva.
As Teses de Lênin conquistam cada vez mais adeptos, em maio um terço dos sovietes de Petrogrado passa a compor o Partido Bolchevique. (TROTSKY, 2007a). Cabe destacar que, em meio a efervescência política daqueles meses, "Desde 15 de maio, o Soviete de Kronstadt se recusava a reconhecer o governo provisório". (SERGE, 1993, p. 55). A perspectiva de Lênin provava-se acertada, pois o governo provisório além de manter as anexações, em junho, avança contra o proletariado:
(...) [O governo provisório] Cede à pressão dos aliados e desencadeia a ofensiva de 18 de junho, carnificina inútil e que só poderia ter sido inútil. Recusa autonomia a Finlândia e se desagrega em função da questão da autonomia da Ucrânia: ministros burgueses são demitidos. Kerenski monta um novo gabinete, onde a influência dos cadets, decididos a sabotar a revolução, é muito mais forte ainda... Esse remanejamento ministerial ocorre durante os tumultos de junho, prólogo da insurreição de outubro. O proletariado e a guarnição militar já não suportam mais as comédias ministeriais. "Todo poder aos sovietes". (SERGE, 1993, p. 53).
De mês a mês, intensificam-se os enfrentamentos do proletariado com o governo provisório e sua base de apoio. O Partido Bolchevique expande sua influência nos Sovietes das cidades e nas forças armadas, conquistando finalmente a posição de maioria. Este passou então de um partido com cerca de 14.000 militantes em fevereiro para mais de 200.000 membros em outubro. Ainda, "Em abril o Partido contava com 72 organizações, num total de 80.000 membros. Em fins de julho, seus efetivos atingem 200.000 filiados, agrupados em 162 organizações". (SERGE, p. 58). Em junho havia mais de 50 sindicatos em Petrogrado, totalizando mais de 250 mil filiados, dentre estes 80 mil eram bolcheviques. (TROTSKY, 2007a). Além disso, contava ainda com uma multidão de simpatizantes diretos, que seguia a risca as políticas e estratégias deliberadas pelos sovietes e pelo partido. Neste contexto, conforme destacou Serge: "No princípio de outubro, a insurreição surgia por todos os lados, espontaneamente: os tumultos no campo se estendiam pelo país inteiro". (SERGE, 1993, p. 56).
A influência menchevique e dos Socialistas Revolucionários (SR) é suplantada pela bolchevique, que passa a contar com 240 mil membros em outubro de 1917. (TROTSKY, 2007a, p. 720). Conforme Serge: "A 31 de agosto em Petrogrado, e a 6 de setembro em Moscou, as moções bolcheviques apresentadas nos sovietes obtêm, pela primeira vez, a maioria. A 25 de setembro, Trotsky é eleito presidente do Soviete de Petrogrado".  (SERGE, 1993, 56). Neste ínterim, a crise político-econômica intensifica-se crescentemente, segundo Deutscher:
Em princípios de outubro a crise chegara a um novo auge. O caos econômico agrava-se. O abastecimento das cidades entrou em colapso. Em grandes áreas, os camponeses estavam ocupando as propriedades da nobreza e queimando suas mansões. O Exército sofreu novas derrotas. A Marinha alemã estava ativa no golfo da Finlândia. Por um momento, a própria cidade de Petrogrado parecia exposta a um ataque alemão. Os departamentos dos governos e círculos militares e comerciais eram pela evacuação da cidade e transferência do governo para Moscou (...). (DEUTSCHER, 2005, p. 359).
Neste contexto, "No dia 9 [de outubro], Trotsky consegue que o soviete de Petrogrado resolva pela formação do comitê militar revolucionário, chamado a constituir-se em estado-maior da insurreição". (BROUÉ, 2005, p. 112). Na sequência, no dia 10 de outubro de 1917, Lênin convence o comitê central do Partido a decidir pela tomada do poder por meio de uma revolução armada. Kamenev e Zivoviev são os únicos que votam contra. (BROUÉ, 2005: DOUTSCHER, 2005: TROTSKY, 2007). Trotsky, que participou desta reunião decisiva, relatou em A revolução de outubro que: "foi adotada a resolução que declarava que o único meio de salvar a revolução e o país da catástrofe final era uma insurreição revolucionária que passasse todo o poder para as mãos dos sovietes". (TROTSKY, 2007, p. 60). No dia 22 de outubro assistiu-se a uma parada do Exército Proletário pelas ruas: "Tudo ocorreu bem. Malgrado todos os avisos da direita de que um rio de sangue tomaria as ruas, as massas populares vinham em grande número para as reuniões do Soviete de Petrogrado". (Idem, p. 75).
Todos os oradores haviam sido postos em ação. Todos os estabelecimentos públicos estavam lotados. As reuniões duravam horas, sem interrupção. Entre os oradores havia membros do nosso partido, os delegados do Congresso dos Sovietes, representante do front, socialistas revolucionários de esquerda e anarquistas. Todos os prédios públicos foram inundados por um mar de operários, soldados e marinheiros. Reuniões como essas, mesmo durante a revolução, raramente haviam ocorrido em Petrogrado. (TROTSKY, 2007, p. 75).
Neste contexto, "Em 23 de outubro o Comitê Revolucionário Militar tinha pronto um plano detalhado das operações (...). Previa uma ocupação rápida, por destacamentos escolhidos, em todas as posições estratégicas na capital". (DOUTSCHER, 2005, p. 396). As maiores cidades operárias da Rússia, Petrogrado, Moscou, Viborg juntamente com os marinheiros de Kronstadt não querem mais esperar. Assim, quando os membros do Comitê Revolucionário Militar "inspecionaram pela última vez a disposição das forças, tiveram a certeza de que poderiam derrubar o governo com um simples empurrão - tão esmagadora era a superioridade das forças que apoiavam o soviete". (Idem, p. 369-370). No dia 24 de outubro "Os marinheiros e a guarda vermelha ocuparam, com pequenos contingentes, o telégrafo, os correios e outros serviços públicos. Começaram os preparativos para tomar o Banco do Estado. (TROTSKY, 2007, p. 80). No mesmo dia:
(...) nos quartéis, se distribuem armas a todos os destacamentos operários. Durante a tarde, os marinheiros de Kronstadt chegam a Petrogrado; do Smolny, sede do comitê, partem destacamentos que vão ocupar todos os pontos estratégicos da capital. (BROUÉ, 2005, p. 115).
O Palácio de Inverno foi tomado no dia 25 de outubro, desta ação "participaram 25 ou 30 mil homens". (TROTSKY, 2007a). Neste dia, "desde o amanhecer, os regimentos dos bolcheviques e milícias vermelhas começam a cercar o Palácio de Inverno, sede do ministério de Kerenski". (SERGE, 1993, p. 74). Segundo Doutscher: "Trotski ordenou que o cruzador Aurora entrasse em ação, bombardeando o palácio com tiros de festim: isso deveria ser suficiente para provocar a rendição do governo". (DOUTSCHER, 2005, p. 376). Assim, "depois de algumas salvas de tiros disparadas pelo cruzador 'Aurora'. A insurreição triunfou". (BROUÉ, 2005, p. 116). (Confira também: REED, 1986). Durante a tomada do Palácio morreram 15 pessoas.
            Assim, a revolução de outubro teve conteúdo qualitativamente distinto da insurreição de fevereiro, pois foi uma insurreição dirigida e organizada por um partido operário marxista revolucionário, que conquistou, por meio de lutas diretas, a confiança da maioria dos sovietes, que havia se disseminado pela Rússia, fazendo avançar a revolução de fevereiro. Com a derrubada de Kerensky, por meio dos sovietes nasce um Estado da classe operária apoiado nos camponeses e nos soldados.
A TOMADA DO PODER É SÓ UM DÉCIMO DA REVOLUÇÃO
Em dezembro de 1917, o II Congresso dos Sovietes aboliu a propriedade privada dos grandes latifúndios. Os comitês de fábricas e os comitês operários, com mandatos revogáveis pela base, geriam a produção. Em 1918 é decretada a expropriação da propriedade burguesa, com isso a burguesia é suplantada como classe.
Porém a burguesia e os latifundiários, por meio do exército branco restauracionista e suas nações aliadas não mediriam esforços ou custos humanos para depor o proletariado do poder, neste foi iniciada a Guerra civil no país, um verdadeiro enfrentamento armado entre o proletariado e a burguesia. Esta se estendeu por quatro longos anos (1918-1921). Sob o comunismo de guerra intensificou-se o ritmo de trabalho no país, tencionaram-se para produzir ao máximo para suprir com alimentos os soldados que combatiam contra os exércitos que invadiam a Rússia. A guerra civil teve como consequência a eliminação de grande parte da vanguarda revolucionária operária e marxista do país.
Os desafios internos e externos para sustentar as conquistas de 1917 eram imensos, bem porque esta era a primeira revolução socialista da história da humanidade. A tomada do poder foi apenas o inicio do processo, agora tratava-se de extingui-lo para construção do socialismo.
V. I. Lenin e Leon Trotsky sabiam que para revolução proletária triunfar, estabelecer o socialismo e marchar para o comunismo era necessário que a revolução se espalhasse pelo mundo, sabiam então da importância da revolução na Alemanha. Porém a posição revolucionária fora traída na Alemanha em 1919, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht teóricos e dirigentes revolucionários foram assassinados. Assim, a derrota da revolução no Ocidente (Alemanha e Hungria) e na China (1925-1927), isolou a revolução russa.
Lênin compreendia que, para que a humanidade desse um salto na direção de sua emancipação e na construção do socialismo, como uma sociedade baseada na auto-organização das capacidades humanas como forças próprias, ou controle coletivo livre, autoconsciente e universal dos trabalhadores sobre o processo de produção/organização da vida, a revolução proletária não poderia limitar-se a um país só.
Para superar o capitalismo e marchar para o socialismo era necessária a auto-organização permanente e cada vez mais profunda dos trabalhadores. A hegemonia deveria vir dos locais de trabalho. A atividade consciente de auto-organização e assim organização social geral, como atividade auto-determinada dos trabalhadores e camponeses, com necessário domínio político pleno e auto-governo, eram imprescindíveis para a criação de novas relações sociais livres e iguais, e para preparar a abolição do Estado e a própria suprasunção da política como forma de mediação das relações sociais. Porém só a difusão desta forma auto-organizada dos trabalhadores em nível mundial, para todos os países é que pode produzir condições materiais efetivas para consolidação do socialismo.
Também é clássica a afirmação feita por Trotsky no livro A revolução traída sobre o caráter e limitações do Estado operário “A princípio, o Estado operário não pode ainda permitir a cada um trabalhar ‘segundo suas as capacidades’, o que significa fazer o que quiser e puder, nem recompensar cada um ‘segundo as suas necessidades’, independentemente do trabalho fornecido. O interesse do crescimento das forças produtivas obriga a recorrer às habituais normas do salário, isto é, à repartição de bens segundo a quantidade e a qualidade do trabalho individual” (TROTSKI, 2006, p. 35). Assim, para o autor a União Soviética era uma sociedade intermediária entre o capitalismo e o socialismo. (p. 176).


REFERÊNCIAS
BOUÉ, P. O partido bolchevique. Ed. Pão e Rosas. 2005.
______. História da internacional comunista. Editora: Sundermann 2005.
DEUTSCHER, I. Trotsky - o profeta armado. RJ. Civilização Brasileira. 2005.
______. Trotsky - o profeta desarmado. RJ. Civilização Brasileira. 2005.
______. Trotsky - o profeta banido. RJ. Civilização Brasileira. 2005.
______. Stalin - uma biografia política. RJ. Civilização Brasileira. 2006.
ENGELS F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Boitempo. 2007.
______. Esboço de uma crítica da economia política. In: Temas de Ciências Humanas, nº. 5. São Paulo: LECH, 1979.
______. Origem da família, da propriedade privada e do Estado.  Editora Civilização Brasileira, RJ. Ano: 1987.
LENIN, V. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, 1980-1982.
______. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de formação do mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
______. Às portas da Revolução: escritos de Lenin de 1917. RJ: Boitempo. 2005.
______. O Estado e a Revolução. Expressão popular. 2007b.
______. Relatório sobre a revolução de 1905. Lenine, Oeuvres, tomo 23, pp. 259-277. Éditions du Progrès, Moscovo, 1974. Tradução Fernado S. A Araújo. Maio de 2007.
_____ Sobre os sindicatos. São Paulo. Editora Polis. 1979.
______.  Que fazer? – problemas candentes do nosso movimento. Editora Expressão Popular. São Paulo. 2010.
______. Imperialismo, fase superior do capitalismo. Editora Centauro. São Paulo. 2008.
______. Cartas de longe. In: As portas da revolução. Slavoj Zizek. Boitempo. 2005.
______. Teses de abril. In: As portas da revolução. Slavoj Zizek. Boitempo. 2005.
______. Capitalismo e agricultura nos Estados Unidos da América. Editora Brasil Debates. 1980.
______. O Programa agrário da social-democracia na revolução russa de 1905-1907. Editora Ciências humanas. 1980b.
______. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Editora Símbolo. São Paulo. 1978.
______. Ilusões constitucionalistas. São Paulo: Kairós, 1979.
______. La bancarrota de la II Internacional. In: Obras Escogidas. Moscú: Progreso. Tomo V, 1976b.
MARX, K. Para a questão judaica. Expressão popular. 2009.
______. A miséria da filosofia. Expressão popular. São Paulo. 2009.
______. A revolução antes da revolução - As lutas de classes na França - de 1848 a 1850. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. A Guerra Civil na França. Expressão popular. 2006.
MARX, K. Critica ao Programa de Gotha. In: Dialética do trabalho. Org. Ricardo Antunes. Expressão popular. 2005.
______. Critica da filosofia do direito de Hegel. Boitempo. 2005.
______. Contribuição à crítica da economia política. Expressão popular. 2005.
______. Manuscritos econômico-filosóficos. Boitempo. 2004.
______. Glosas críticas ao artigo O Rei da Prússia e a Reforma Social. De um prussiano. In: Praxis, n. 5, out/dez 1995. 
______. Formações econômicas pré-capitalistas. Paz e Terra, 1975.
MARX, K: ENGELS, F. Manifesto Comunista. Boitempo. 2004.
______. A ideologia Alemã. Boitempo. 2007.
REED, J. Os dez dias que abalaram o mundo. São Paulo: Círculo do Livro, 1986.
TROTSKY, L. História da revolução russa. São Paulo. Sundermann. 2007.
______. Lições de outubro. São Paulo. Editora Sundermann. 2007b.
______. A revolução de outubro. São Paulo. Boitempo/Iskra. 2007.
______. O programa de transição. São Paulo. Edições Iskra. 2007.
______. A revolução traída: a onde vai a URSS. São Paulo. Editora Sundermann. 2006.
______. A revolução permanente. Editora Expressão popular. 2005.
______. Aonde vai a França? Editora desafio. 1994.
______.  As três concepções da Revolução Russa. In: Stálin: O militante anônimo. São Paulo: Ched, 1980. Volume 1.
______. O Estado operário, termidor e bonapartismo. S. E. 1935.
______. A revolução de 1905. Editora Global. 1975.
______. 1905: Balanço e perspectivas. Editora Penguim Books. 1971.

0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Lady Gaga, Salman Khan