Combate Classista

Teoria Marxista, Política e História contemporânea.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A QUESTÃO NEGRA E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA - apontamentos iniciais



O processo de desagregação do feudalismo, e o conseqüente desenvolvimento do mercantilismo, lançou bases para o inicio de uma nova fase de desenvolvimento da humanidade. Com o enfraquecimento e falência do feudalismo, enriquecimento dos comerciantes dos burgos, a servidão entrou em crise profunda. (Confira:http://combateclassista.blogspot.com.br/2016/01/o-que-foi-o-feudalismo.html).
No entanto, durante o processo de transição do feudalismo para o capitalismo, Portugal uma das principais potências marítimas estará também à frente da reabilitação da escravidão em outros marcos. O país será o pioneiro em sequestros e deportações em massa da população africana que será utilizada e vendida como mão de obra escrava. O trafico negreiro passou rapidamente a constituir um dos pilares da economia portuguesa, disseminando-se ainda para outros países da Europa e do continente americano, sendo que o Brasil foi o país que recebeu os maiores contingentes de africanos sequestrados e escravizados. O mercantilismo escravocrata criou os alicerces para o capitalismo. Cada centímetro do solo dos países escravagistas foram regados abundantemente com o sangue de negros e negras do continente africano. Tiveram seu sangue derramado para produzir algodão, fumo, açúcar, café, etc.
Após os sequestros e aprisionamento em massa, negros e negras eram então transportados de navios para locais onde eram traficados. Por conta das Grandes Navegações, a empresa mercantilista, já existia toda uma estrutura marítima, de circulação e de distribuição. Toda essa estrutura foi posta a serviço da escravidão. As viagens dos Navios Negreiros para o Brasil duravam por volta de 50 dias. As condições dos navios negreiros eram extremamente precárias e insalubres. Metade da população africana transportada morria nos navios negreiros.
Os negros e negras a todo o momento resistiam as prisões, sequestros e deportações. Isso desde a captura, transporte e sobretudo nos países onde eram mantidos em condição de escravo. A repressão contra os escravizados era brutal. Os Estados capitalistas nascentes e seus sócios menores, compreendendo o trabalho escravo como produtor de imensas riquezas, utilizavam-se de toda forma de terror possível para buscar submeter a população escravizada. Toda ordem de castigos e mutilações eram praticadas corriqueiramente como forma de impor medo a população africana dominada como forma de lhes desencorajar as rebeliões, resistência e fugas. Ainda assim, por toda parte, a população escravizada lutava dia-a-dia pela liberdade. Fugiam e formavam agrupações e comunidades, no Brasil, como sabemos, essas comunidades foram chamadas de quilombos.
Desta forma, a escravidão da população africana moderna, em conjunto com a expulsão dos camponeses das terras (quando as ovelhas devoravam homens e mulheres do campo), no seio do Mercantilismo, constituíram as bases primitivas para a edificação do capitalismo. Como destacava Malcolm X, os povos africanos sequestrados foram tornados cativos para edificar toda a riqueza da qual eram impedidos de usufruir. Nas palavras de Malcolm X
“Somos um povo que outrora era africano, foi seqüestrado e trazido para América. Nossos antepassados não foram peregrinos (...). Nós fomos trazidos aqui contra nossa vontade. Não fomos trazidos até aqui para sermos cidadãos, não fomos trazidos até aqui para desfrutar das benesses constitucionais das quais eles falam tão bem hoje”. (http://www.youtube.com/watch?v=RdYMvxs368s).
Conforme analisa Malcolm no mesmo vídeo foram 310 de trabalho escravo que amontoaram imensas riquezas para as classes dominantes americanas. Em suas palavras foram
"310 anos, nos quais cada dia suas mães e a minha, meu pai e os seus trabalhavam em troco de nada. E não como uma jornada de 8 horas/dia. Não existiam sindicatos naquela época. Eles trabalhavam do nascer ao por do sol. Começavam quando ainda estava escuro e iam noite adentro até não poderem enxergar mais. Eles nunca tiveram um dia de folga".
Malcolm X conclui corretamente que "Esses 310 anos de trabalho escravo são a minha e a sua contribuição para esta economia e sistema político em particular". No caso do Brasil foram 400 anos de escravatura que encheram as bolsas e os cofres das oligarquias e avolumaram as heranças da burguesia brasileira. Essa burguesia descendente do escravagismo herdou não apenas as gigantescas proporções de terras e latifúndios, mas também toda uma ordem patrimônio que empilhado a partir do trabalho dos povos africanos escravizados. Herdou também toda a estrutura politica e repressiva do aparato estatal escravocrata que continuou (e continua) sendo usado contra a população negra e seus descendentes e os setores mais pauperizados da classe trabalhadora.
Os escravocratas com toda a força de guerra de seu aparato estatal escravagista determinavam que apenas quando morressem é a população africana deixariam de ser escravos. O Estado Escravagista constituía uma verdadeira máquina de fazer cativos e extrair deles a maior riqueza possível, utilizando-se corriqueiramente de todas as formas de violência, tortura e assassinato que lhe conviesse para acumular riquezas. E como combater os Estados escravocratas e todas suas tradições racistas? Malcolm X tinha perspectiva muito clara sobre isso: 

"Façamos ele nos pagar o que nos deve. Vamos nos Unir! E se é isso que o negro quer, vamos nos juntar a ele. Vamos lhe mostrar como manter o esforço de batalha. Vamos lhes mostrar como lutar! Vamos lhe mostrar como causar uma verdadeira revolução!"

Também tomando tais processos, Karl Marx utilizava a categoria de estados escravistas para expressar o conteúdo dessas relações de dominação, entendendo sempre que toda sua acumulação primitiva dos Estados escravagistas derivava também da escravização. 
Embora Marx não tenha se dedicado extensivamente para teorizar sobre a escravidão, é certo que também nesse campo o autor deixou indicações muito importantes de como pensá-la. Constatava que, a população africana em condição de escravização, era quem produzia nos Estados Unidos seus principais produtos de exportação, "algodão, fumo, açúcar, etc.." e com isso a própria riqueza nacional. Analisava que eram os escravagistas, por meio de um partido escravagista exerciam hegemonia no Senado americano impunham as leis escravocratas a todo o país. Com tudo isso, os escravistas tinham o domínio do poder sobre a máquina do Estado. (A guerra civil norte-americana. In: Liberdade de imprensa, L&;PM, 2009). Aos 28 anos de idade, Marx analisava que, uma vez que o próprio sistema econômico e político era fundado sobre a escravidão, o fim da escravidão poderia levar a uma crise profunda do Estado americano.

"(...) no Brasil, nas regiões do sul da América do Norte. (...). A escravidão direta é tanto quanto o pivô em cima do qual nosso industrialismo dos dias de hoje faz girar a maquinaria, o crédito, etc. Sem escravidão não haveria nenhum algodão, sem algodão não haveria nenhuma indústria moderna. É a escravidão que tem dado valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, e o comércio mundial é a condição necessária para a indústria de máquina em grande escala. Conseqüentemente, antes do comércio de escravos, as colônias emitiram muito poucos produtos ao mundo velho, e não mudaram visivelmente a cara do mundo. A escravidão é conseqüentemente uma categoria econômica de suprema importância. Sem escravidão, a América do Norte, a nação a mais progressista, ter-se-ia transformado em um país patriarcal". (Carta de Karl Marx a Pavel Vasilyevich Annenkov, Paris Escrita em 28 de dezembro de 1846).

Desta forma, conclui ainda em 1846 que, como o sistema escravista construiu toda a riqueza norteamericana "fazer desaparecer a escravidão equivaleria a apagar a America do norte do mapa do mundo. Confira a versão completa em Espanhol: https://www.marxists.org/espanol/m-e/cartas/m28-12-46.htm:
La esclavitud directa es un pivote de nuestro industrialismo actual, lo mismo que las máquinas, el crédito, etc. Sin la esclavitud, no habría algodón, y sin algodón, no habría industria moderna. Es la esclavitud lo que ha dado valor a las colonias, son las colonias lo que ha creado el comercio mundial, y el comercio mundial es la condición necesaria de la gran industria mecanizada. Así, antes de la trata de negros, las colonias no daban al mundo viejo más que unos pocos productos y no cambiaron visiblemente la faz de la tierra. La esclavitud, es, por tanto, una categoría económica de la más alta importancia. Sin la esclavitud, Norteamérica, el país más desarrollado, se transformaría en país patriarcal. Si se borra a Norteamérica del mapa del mundo, tendremos la anarquía, la decadencia absoluta del comercio y de la civilización modernas. Pero hacer desaparecer la esclavitud equivaldría a borrar a Norteamérica del mapa del mundo. La esclavitud es una categoría económica y por eso se observa en cada nación desde que el mundo es mundo. Los pueblos modernos sólo han sabido disfrazar la esclavitud en sus propios países e importarla al nuevo mundo. ¿Qué hará nuestro buen señor Proudhon después de estas consideraciones acerca de la esclavitud? Buscará la síntesis de la libertad y de la esclavitud, el verdadero término medio o equilibrio entre la esclavitud y la libertad.
Em 1861 analisa que a única forma de manutenção da união do Estado americano, para se evitar a secessão, seria abolindo a escravatura. Em suas analises sobre a guerra civil norte-americana (1861-1865), Marx continua defendendo que a escravidão é que dava base a todo alicerce a todo edifício do Estado. Segundo o autor, a própria Corte suprema dos Estados Unidos havia sido até então "a ferramenta mais serviçal dos senhores de escravos". O Estado americano torna-se um serviçal "de trezentos mil donos de escravos" implantando para isso uma "Constituição escravagista".
E é nesse perspectiva que Marx, como dirigente da Primeira Internacional, entendendo como candente a luta contra a escravidão, redige um documento oficial ao recém reeleito Abraham Lincoln (http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/11/29.htm). A Internacional Comunista encarava a eleição de Lincoln como uma vitoria contra a "oligarquia de 300.000 proprietários de escravos. Marx e a Internacional argumentam que "a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura".
Nessa brevíssima carta a Abraham Lincoln, Marx chega a criticar a classe operária americana, argumentando que o operariado permitiu que os trabalhadores e trabalhadoras do continente africano fossem submetidos a condição de escravos sendo "vendidos e dominados sem seu consentimento". De acordo com sua analise, a imposição de tal sistema brutalizado colocava em xeque toda a república americana, uma vez que sob o mesmo solo conviviam trabalhadores livres e africanos feitos de refém em terra alheia. Enquanto toda a população negra não estivesse livre, a própria sociedade americana também não o seria completamente. Segundo Marx

"Enquanto os operários, as verdadeiras forças [powers] políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república, enquanto perante o Negro — dominado e vendido sem o seu consentimento — se gabaram da elevada prerrogativa do trabalhador de pele branca de se vender a si próprio e de escolher o seu próprio amo, foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação; mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil" (http://www.marxists.org/portugues/marx/1864/11/29.htm).
Para Marx e a Internacional Comunista, a derrota da escravidão constituiria uma vitória para toda a classe trabalhadora. O que a classe trabalhadora fizesse em apoio à população africana, estaria fazendo também, e ao mesmo tempo, para si mesma. Isso porque entendia que, apenas articulando a luta contra a escravidão e opressão racial com a luta pelo socialismo, é que seria possível a "reconstrução de um mundo social".
Ou seja, para Marx era claro que a estruturação dos estados capitalistas no continente europeu e americano deu-se em base as incursões, sequestros e deportações da população negra. No continente africano conviviam uma serie de povos, etnias e grupos sociais. Com o desenvolvimento das Grandes Navegações inaugura-se novos patamares de relações entre a população européia e do continente africano. A coroa portuguesa, aristocratas e nobreza, já na segunda metade de 1400, começavam a escravizar negros africanos. Com as Grandes Navegações, Portugueses, Ingleses, Espanhóis, Franceses, Holandeses e Americanos financiavam guerras entre povos e etnias como forma de constituir prisioneiros e consumarem sequestros de amplos contingentes da população negra do continente africano.
Esses sequestrados seriam vendidos como mercadorias no continente europeu e americano. Em O capital, capitulo XXIV, Marx escrevia: "(...). A Inglaterra conseguiu a concessão de fornecer anualmente a América Espanhola, até o ano de 1724, 4.800 negros. Isto servia, ao mesmo tempo, para encobrir sob o manto oficial o contrabando britânico. Na base do trafico negreiro, Liverpool teve grande crescimento. (...) Liverpool empregava 15 navios no tráfico negreiro, em 1730; 53, em 1751; 74, em 1760; 96, em 1770, e 132, em 1972". (p. 878). Cada centímetro do solo dos países escravagistas foram abundantemente regados com o sangue da população africana escravizada. Ou seja, o capitalismo americano fincou bases sobre o trabalho escravizado. E mesmo com os processos de abolição, manteve-se a população africana em condissões precárias de vida. Como apontava Lenin em 1915, no texto Capitalismo e agricultura nos Estados Unidos da América (http://www.marxists.org/portugues/lenin/1915/agricultura/index.htm).

O Sul dos Estados Unidos foi escravista até que a guerra civil de 1861-1865 extinguisse a escravidão. Até o presente, o número de negros, que não ultrapassa 0,7 a 2,2% da população das regiões Norte e Oeste, representa no Sul 22,6 a 33,7% do total da população. A proporção de negros é de 10,7% para o conjunto dos Estados Unidos. É inútil falar da situação degradante a que são submetidos: sob este aspecto, a burguesia americana não é melhor que a de outros países. Após haver “libertado” os negros, ela se esforçou, com base no capitalismo “livre” e republicano-democrático, por restabelecer tudo o que fosse possível ser restabelecido, por fazer o possível e o impossível para oprimir os negros da maneira mais descarada e vil. (...). (p. 10). 

A saída apontada por Marx
É no texto Para a questão judaica, escrito em 1843, onde Marx começa a apontar uma saída para as resoluções das demandas democráticas, estas formulações são retomadas em A ideologia alemã. Ao analisar a questão judaica, Marx defende a liberdade de crença e de culto, afirmando que não cabe ao Estado legislar sobre a vida religiosa dos grupos sociais. Nessa discussão discute as diferenças substanciais entre a emancipação política e a emancipação humana. A emancipação política pode ser identificada como conquistas socio-humanas que podem ser alcançadas dentro da ordem vigente (como as reformas), enquanto que a emancipação humana é uma luta social travada para suplantar a ordem vigente (como as revoluções). O autor não contrapunha estas duas formas de emancipação social. Marx defende a necessidade de lutar e apoiar as demandas por emancipação política - liberdade religiosa - (mas que podemos estender para pensar também a luta por educação de qualidade, cotas, igualdade sexual, liberdade sexual, etc.). Para o autor as lutas por liberdade políticas são de grande importância, pois pretendem eliminar limitações pontuais imposta aos seres humanos, porém, destaca que devemos ampliar nossas perspectivas de emancipação social articulando as lutas por emancipação política (marcada pelos limites do status quo) às lutas pela emancipação humana, para o autor a sociedade capitalista é incorrigível, por isso a emancipação humana deve necessariamente dissolver o Estado, e com isso, a propriedade privada, o regime de salariato etc.
Grupos oprimidos e o Sujeito revolucionário
O fato de lutar frontalmente pelas liberdades democráticas que expandem as liberdades humanas pontualmente, não tira o foco do proletariado como sujeito revolucionário. A revolução socialista não é possível sem a centralidade e a independência do proletariado como sujeito social frente aos demais grupos sociais que se enfrentam e que são oprimidos pelo sistema capitalista.
O sujeito revolucionário continua sendo o proletariado, desde o Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels analisavam que a classe trabalhadora constituía o único sujeito social capaz de transformar as bases da sociedade. Assim desenvolvem a centralidade da classe operária para a revolução socialista. Para os fundadores da teoria da revolução socialista a classe trabalhadora é o único sujeito revolucionário capaz de implantar uma nova sociedade, conforme podemos apreender no Manifesto as seguintes causas reafirmam tais elementos: 1) a classe trabalhadora está concentrada em grandes contingentes nos pontos centrais do sistema capitalista; 2) Sua posição social na produção na sociedade capitalista faz com que adquira capacidade de organização e planificação da produção; 3) O proletariado vive da venda de sua força, recebem salários suficientes apenas para reproduzir suas condições básicas de existência, assim predomina grande homogeneidade de condições de vida; 4) Decorrente de sua maioria numérica e posição de produtor e organizador da produção, possui poder político de submeter todas as outras classes sociais; 5) Ao mesmo tempo em que cria um novo sistema de organização e trabalhão para si, cria também para todos. Tem-se da impossibilidade de criar um novo modo individual de apropriação dos frutos do trabalho. 6) A classe operária é internacional.
No caso da população negra, para uma revolução socialista no Brasil, é necessária uma fusão revolucionária entre o programa histórico do proletariado internacional e as demandas do povo negro.
Todo esse processo passou a receber maior atenção dos marxistas a partir da formação da III Internacional em 1919. Em continuidade com as reflexões de Marx contra a escravidão e seus desdobramentos, a Terceira Internacional Comunista, dirigida por Lênin e Trotski busca tomar a questão negra de forma revolucionaria. Nas resoluções do IV Congresso da Internacional de 1922, na seção “TESE SOBRE A QUESTÃO NEGRA” destacam que 

“Os financistas maníacos dos EUA, que exploram em seu território 12 milhões de negros, se dedica agora a tarefa de penetrar pacificamente na África”. (...) Há trezentos anos os negros norte-americanos foram arrancados de seu país natal, a África, e arrastados para a América onde tem sido objeto dos mais abjetos tratamentos e vendidos como escravos. Faz 250 anos, que trabalham sob o chicote dos proprietários norte-americanos. São eles que desmataram os bosques, construíram estradas, plantaram algodão, colocaram trilhos nas estradas de ferro e mantiveram a aristocracia confortável. Sua recompensa foi a miséria, a ignorância, a degradação. O negro não foi um escravo dócil, recorreu a rebelião, a insurreição, a fuga, tudo para recuperar sua liberdade. Mas seus levantes foram reprimidos com sangue. Através da tortura, foi obrigado a submeter-se. A imprensa burguesa e a religião se associaram para justificar sua escravidão. Quando a escravidão começou a competir com o trabalho assalariado e se transformou em obstáculo para o desenvolvimento da América capitalista, teve que desaparecer. (...) 3. A Internacional Comunista observa com satisfação que os operários negros explorados resistem aos ataques dos exploradores, pois o inimigo da raça negra é também dos trabalhadores brancos. Este inimigo é o capitalismo, o imperialismo. A luta internacional da raça negra é uma luta contra o capitalismo e o imperialismo. Com base nesta luta deve organizar-se o movimento negro. A Internacional Comunista (...) considera que é seu dever acolher e ajudar à organização internacional do povo negro em sua luta contra o inimigo comum. (...). 6. a) O 4º Congresso reconhece a necessidade de manter toda forma de movimento negro que tenha por objetivo enterrar e enfraquecer o capitalismo ou o imperialismo, ou deter sua penetração. b) A Internacional Comunista lutará para assegurar aos negros a igualdade de raça, a igualdade política e social”.

Aprofundando as reflexões do Quarto Congresso Da Terceira Internacional, Trotski apontava em 1939 que os trabalhadores e trabalhadoras brancos, bem como suas instituições, partido, sindicatos, etc... podem ser influenciados pela visão da classe dominante branca e racista, destacava que “Os trabalhadores qualificados que se sentem estabelecidos na sociedade capitalista ajudam a classe burguesa a dominar os negros e os trabalhadores não qualificados, que se encontram em um patamar muito baixo”. Desta forma, compreendia que a questão negra “É uma questão vital para o partido. É uma questão importante. É uma questão de se o partido está para se transformar em uma seita ou se é capaz de encontrar seu caminho até a porção mais oprimida da classe trabalhadora”.(L. Trotski, “Uma organização Negra", 1939). É justamente a essa perspectiva que devemos nos juntar. Sem a incorporação das demandas da população negra não será possível uma revolução no Brasil.

Monarquia e Igreja: carrascos dos índios e africanos
Mediante tais processos, também no Brasil, o hibrido Estado Monárquico constituir-se-ia como um Estado escravagista, amparado pelo conjunto de códigos legais definidos localmente pela Monarquia e pelas elites aqui estabelecidas que determinaram o código civil escravista legitimando torturas e castigos, com direito absoluto sobre a vida e morte da população indígena e africana sequestrada.
Também a Igreja somava-se as instituições escravistas. Conforme denota as Cartas de Padre Manuel da Nóbrega dirigida a D. João III, Rei de Portugal. Em carta datada de 14 de setembro de 1551 (Olinda - PE) o padre escreve "mande dar alguns escravos de G[u]iné hà cassa pera fazerem mantimentos, porque a terra hé tam fértil, que facilmente se manterame vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que fação roças de mantimentos e algodoais". Ainda em outra carta "Se El-Rei favorecer este e lhe fizer igreja e cassas, e mandar os escravos que digo (e me dizem que mandão mais escravos a esta terra, de Guiné; se assi for podia logo vir provisão pera mais tres meses ou quatro alem dos que a case tem)".
Também Frei Vicente, em apoio a instituição escravocrata, fazia campanha contra os negros e negras que se rebelavam, fugiam e formavam quilombos "informado o governador que um mocambo ou magote de negros de Guiné fugidos que estavam nos palmares do rio Itapucuru, quatro léguas do rio Real para cá, mandou lhes que fossem de caminho dar neles, e os apanhassem às mãos, como fizeram, que não foi pequeno bem tirar dali aquela ladroeira e colheita que ia em grande crescimento". Em outra carta Frei Vicente felicitasse pelo extermínio da africanos que estavam em fuga do cativeiro "foi Deus servido de dar aos nossos vitória com morte de duzentos contrários, fora trinta que tomaram vivos em duas canoas". Além disso, a Igreja utilizava a mão de obra africana para construir Igrejas para si.
Padre Antonio Vieira, em seu Sermão Vigésimo Sétimo do Rosário, para justificar a escravidão proclamava: "Sabei, pois, todos os que sois chamados escravos, que não é escravo tudo o que sois. Todo o homem é composto de alma (...) De maneira, irmãos pretos, que o cativeiro que padeceis, por mais duro e áspero que vos pareça, não é cativeiro total, ou de tudo o que sois, senão meio cativeiro. Sois cativos naquela metade exterior mais vil de vós mesmos, que é o corpo porém na outra metade interior e nobilíssima, que é a alma, principalmente no que a ela pertence, não sois cativos mas livres".

Brasil: uma elite em apuros
Ainda assim, durante a colônia a elite brasileira vivia sob dupla pressão, por um lado era pressionada pelo imenso contingente populacional de africanos e africanas sequestrados e escravizados que se rebelavam continuamente em busca de liberdade. Sendo que os negros e negras tornam-se rapidamente os braços e as pernas (e em muitos casos os cérebros) da elite colonial, coroa, nobreza e seus consortes. Sem a população africana a colônia não podia manter-se. Por outro, esta pequena elite colonial era também pressionada pelos imperativos do imperialismo, esta contradição renova-se durante a República seguindo até os dias de hoje. Sobre essa dominação objetiva constituíram-se as teorias raciais, como forma de fornecer um referendo cientifica para as relações sociais que já estavam a centenas de anos em curso.
No entanto, a população negra lutava com todas suas forcas contra a escravização, desde o momento dos sequestros no continente africano, mas também durante as longas viagens até o desembarque em terras alheias. A elite colonial torturava e assassinava-os por quaisquer motivos que lhe ocorressem, a população negra escravizada revidava, organizavam-se e se enfrentavam com fazendeiros, jagunços e capitães do mato. Nos países onde desembarcava continuavam as revoltas, fugas e todas formas possíveis de auto-organização e resistência. Também no Brasil, desde a chegada da população negra, os que conseguiram fugir criavam comunidades em regiões afastadas dos domínios da elite.
São inumeráveis os quilombos formados durante o período colonial. Mas cabe destaque ao Quilombo de Palmares, dirigido centralmente por Zumbi e Ganga Zumba. Este quilombo resistiu aos imperativos da coroa portuguesa por mais de 100 anos, enfrentou uma serie de expedições que tentavam destruí-lo e assassinar sua população. Por sua forma de auto-organização Palmares acabou por constituir-se quase como um “Estado paralelo” em relação à coroa. Tornou-se rapidamente local de esperança e refugio para os que conseguiam fugir das fazendas. Desta forma Palmares colocava em risco econômico e político a empresa colonial escravocrata e a própria monarquia que era estruturalmente dependente da escravidão.

Trabalhadores escravizados e livres se unem
Outro elemento que merece destaque é que, como aponta Badaro Mattos, também no Brasil, a escravidão coexistiu com o trabalho livre, haviam fábricas em que o os escravizados chegavam a ¼ do efetivo de trabalhadores. Ou seja, dentro de um mesmo estabelecimento mantinha-se mão de obra livre e escravizada. Essa mistura podia ser observada também em estaleiros, construções, carpintaria, ‘jornaleiros’, ‘marítimos’, nas ‘indústrias’, entre as ‘costureiras’, artesões, estivadores, carregadores de café, barqueiros, marinheiros, barbeiros, acendedores de lampiões, varredores de rua, etc. (Lamounier 1993: Badaro, 2004: 2007). Em diversas ocupações e profissões coexistia trabalho livre e escravizado.
O próprio Estado brasileiro era também proprietário de escravos e utilizava-se de seu trabalho para os serviços públicos, “o Estado, que possuía as maiores manufaturas do período, investia no treinamento em ofícios de seus “escravos da nação” (Badaro, 2004). Ainda, como destaca Maria Lúcia Lamounier (2008), “Os escravos eram também empregados em diversas obras públicas. O emprego de escravos do Estado e/ou de particulares e africanos livres (e/ou “emancipados”) na construção de estradas de rodagem era frequente. Além disso, no período 1850-1890, o Estado brasileiro se valerá da utilização em larga escala de mão de obra escrava na construção das ferrovias do país. Nas ferrovias trabalhavam também muitos imigrantes europeus, o que contribuía ainda mais para fomentar a auto-organização operária. Com tudo isso, as relações de solidariedade se aprofundavam entre trabalhadores escravizados e livres, o que intensificava a desaprovação da escravidão.
Desta forma, as lutas da população negra escravizada, sua organização e ação coletiva, influenciava diretamente os trabalhadores assalariados. Já em 1857, de acordo com Badaro (2004), 32 trabalhadores negros escravizados foram protagonistas de uma paralisação no trabalho. Para conter a paralisação acionou-se a policia que deteve os escravizados. Em outro artigo (2007), Badaro cita o protagonismo de João de Mattos que organizava paralisações e fugas de escravos em padarias. João de Mattos chegou a organizar o Bloco de Combate dos Empregados em Padarias. O Bloco tinha sede, estatuto e um lema Pelo pão e pela liberdade. O autor aponta ainda que durante o período escravista existiam sindicatos e associações operárias que tinham uma orientação abolicionista ativa, organizavam arrecadações para compra de alforria.
A população negra continuava sendo expulsa das terras onde trabalhavam, substituídos nos mais variados locais de trabalho. Os postos de trabalho que ocupava foram cedidos aos imigrantes, portugueses, italianos, etc... Conforme aponta Badaro (2004), “O fato é que os espaços deixados pelos escravizados foram ocupados por trabalhadores livres, muitos dos quais imigrantes, em especial portugueses, que já ocupavam uma fatia de cerca de 30% dos empregos de livres na cidade nos anos 1830”. Com isso, a população negra foi obrigada a viver nas matas, próximas a rios e vales, formaram novos quilombos. Outra parte manteve-se ou instalou-se nas cidades, ao redor dos centros urbanos formaram comunidades, bairros e favelas, ainda, os setores mais precarizados passaram a constituir setores expressivos dos pobres urbanos.  Assim, fica claro que foram as políticas publicas, dirigidas pela elite colonial, e depois pela burguesia brasileira durante todo o século XX que determinou o racismo.
Mesmo depois da abolição a auto-organização, revoltas e rebeliões negras continuaram a serem desencadeadas. A população negra e seus descendentes tomaram parte em todos os processos de luta de classes mais agudos da sociedade brasileira. Desde Canudos, Contestado, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata. Todas sufocadas com muita violência pelas classes dominantes por meio de seu Estado e aparato repressivo, como pode-se observar no caso da “Revolta da Chibata deflagrada em novembro de 1910, influenciada pelo Encouraçado Potemkim, esta a Revolta teve como uma das principais lideranças o marinheiro negro João Cândido. Nesse período a marinha era composta por grande numero de marinheiros negros. Esta Revolta negra foi duramente reprimida, o Estado utilizou-se de grande violência, com fuzilamentos e desterros, os debelados sobreviventes foram mandados para Ilha das Cobras. Segundo João Quatin de Moraes
Entre 1.000 a 2.000 marinheiros foram sumariamente expulsos da Armada e todos os dirigentes dos dois levantes foram presos. Lavados a um imundo calabouço, os dezoito presos foram intoxicados com cal, abundantemente derramado na cela sufocante sob o cínico pretexto de desinfetá-la. Quando, na manhã de 25 de dezembro, talvez em atenção a data, a cela foi aberta, dezesseis cadáveres, alguns já apodrecendo, a entulhavam. Um dos dois sobreviventes era João Candido, o principal dirigente da rebelião. Naquele mesmo dia de Natal, deixava o rio de janeiro o navio satélite, levando nos porões uma carga humana  de cerca de 500 deportados para a Amazônia, marginais na maioria, mas também 105 marinheiros considerados instigadores da trágica revolta. Na longa viagem, nove dos principais “cabeças” do movimento foram fuzilados.
Mesmo frente aos processos brutais de repressão a população negra continua a organizar-se. Em 1912, eclode no Sul a “Guerra do contestado. No dia 4 de maio de 1912 acontece uma nova greve de trabalhadores agrícolas contra o patronato rural em Ribeirão Preto envolvendo 70 famílias. E em 1913 desencadeia-se outra greve de colonos na Região que envolve 10 mil colonos (PINHEIRO & HALL, p.120). A população negra foi para as ruas nas greves de 1917 em São Paulo, nas greves gerais no Rio de Janeiro em 1919, compunham a Coluna Prestes, nas inúmeras revoltas camponesas, movimentos de carestia, piquetes, etc... No ascenso das décadas de 1950 e 1960 a população negra pega em armas no campo, constituindo parte importante das Ligas Camponesas e das revoltas em Trombas e Formoso. Na marinha organizam rebeliões e colocam suas armas a serviços dos trabalhadores e trabalhadoras em greve.
Durante o período escravista existiam sindicatos e associações operárias que tinham uma orientação abolicionista ativa (organizando fugas, compra de alforrias e até tentativa de controle operário no caso dos gráficos) e também imprime diversas marcas nos anos posteriores à abolição que são chave recuperarmos para a história dos negros e da classe operária brasileira bem como, para posteriormente, entender como estas relações foram se alterando e esmaecendo.
Além da pressão interna cotidiana das revoltas, rebeliões, enfrentamentos, fugas e formação de quilombos que desafiavam constantemente a ordem escravocrata, a elite colonial ainda era pressiona de outro lado pelo imperialismo europeu, a revolução industrial impunha o regime de salariato e buscava mercado para seus produtos. Essa pressão crescia na medida em que a Inglaterra se fortalecia como potencia imperialista mundial.
Mesmo após a abolição, as pressões do imperialismo e dos levantes da população negra continua, como podemos observar na Revolta da Vacina, Contestados e Revolta da Chibata. Cabe destacar que a abolição foi imposta por duas forcas, uma interna e outra externa, sendo a interna constituída justamente pelas revoltas e rebeliões negras, e a externa pelo imperialismo Inglês e Frances, que queriam novos mercados consumidores. Contraditoriamente, mesmo sendo fruto das lutas do povo negro, com a abolição o Estado indenizou os fazendeiros escravocratas, e não as vitimas sequestradas extraditadas e feitas escravas.
Após o processo abolicionista, a nascente burguesia brasileira buscou agarrar-se as teorias raciais para justificar a desigualdade entre negros e brancos. Ainda em 1850 criou a lei de terras para garantir que a população negra não plantasse e colhesse pra si mesma, pois isso levaria a uma redução drástica da mão de obra no pais (lei semelhante era discutida nos E.U.A no mesmo período). Sendo que, após a abolição, a população negra foi expulsa de seus locais de trabalho, no entanto, mesmo que quisessem, não podiam voltar para o continente africano. Não receberam qualquer contrapartida ou indenização do Estado ou dos fazendeiros que eram os responsáveis pelo seu sequestro e escravização. Contrario a isso, com a abolição, os fazendeiros escravocratas foram quem receberam indenizações do Estado. Isso porque o Estado, latifundiários e fazendeiros escravocratas eram sócios inseparáveis. Todo aparato estatal atuava conscientemente contra a população negra. Assim, a própria burguesia brasileira já nasce com suas mãos cheias de sangue, pois essa burguesia nasce do campo, da empresa colonia, e logo dos mercado escravocrata. A acumulação primitiva de capital por essa burguesia só foi possível por conta dos imensos lucros acumulados com o trabalho escravo e com o trafico negreiro.
A população negra continuava sendo expulsa das terras onde trabalhavam, substituídos nos mais variados locais de trabalho, foram obrigados a viver nas matas, próximas a rios e vales, formaram novos quilombos. Outra parte manteve-se ou instalou-se nas cidades, ao redor dos centros urbanos formaram comunidades, bairros e favelas, ainda, os setores mais precarizados passaram a constituir setores expressivos dos pobres urbanos.
Como herança desse processo, a população negra ocupa os postos de trabalho mais precários da sociedade, recebe menores salários e são as vitimas escolhidas pela policia e por todo aparato repressivo das classes dominantes brasileiras. Assim, fica claro que foram as políticas publicas, dirigidas pela elite colonial, e depois pela burguesia brasileira durante todo o século XX que determinou o racismo. Nesse sentido, é totalmente correta a formulação de Malcolm-X de que "Não existe capitalismo sem racismo".
Longe de qualquer perspectiva de passividade, enquanto existiu escravidão existiu resistência da população negra escravizada. Mesmo depois da abolição a auto-organização, revoltas e rebeliões negras continuaram a existir. A população negra e seus descendentes tomaram parte em todos os processos de luta de classes mais agudos da sociedade brasileira. Desde Canudos, Contestado, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, mas também nas greves de 1917 em São Paulo, nas greves gerais no rio de janeiro em 1919, compunham a Coluna Prestes, nas inúmeras revoltas camponesas, movimentos de carestia, piquetes, etc... No ascenso das décadas de 1950 e 1960 a população negra pega em armas no campo, constituindo parte importante das Ligas Camponesas e das revoltas em Trombas e Formoso. Na marinha organizam rebeliões e colocam suas armas a serviços dos trabalhadores e trabalhadoras em greve.



Na segunda metade da década de 70, ligado ao descontentamento generalizado contra a ditadura a ao ascenso proletário e camponês em curso, emergiu um poderoso movimento negro, até então inédito na história do Brasil desde a abolição. Foi um movimento que, influenciado pelas lutas de libertação das colônias negras na África (Angola, Guiné Bissau, Moçambique etc.) e pelos movimentos de Martin Luther King, Macom X e dos Panteras Negras nos EUA, surgiu em várias dimensões, não só político-sociais, mas também culturais.
Nos bairros da periferia do Rio de Janeiro, o funk transforma-se em um instrumento de afirmação da identidade negra, juntamente com uma forma própria de vestir, pentear o cabelo (“Black Power”) etc. Revalorizam-se as religiões de origem africana, os filhos de negros começam a ser batizados com nomes africanos e as letras de samba passam a expressar a identidade negra em maior medida. É nesse momento histórico que surgem grupos que buscam reviver a cultura afrodescendente através dos movimentos culturais pan-africanistas e chega a se desenvolver uma ideologia “anti-miscigenação”, na qual os negros eram estimulados terem relações apenas com negros.
Se por um lado o movimento negro dos anos 30 foi tão ou mais massivo que o dos anos 70, ao contrário daquele primeiro, que havia sido atraído para ideologias de inspiração fascista, esse novo movimento se identificava com as lutas operárias e populares em curso contra a ditadura, com as idéias e as organizações de esquerda. É nesse momento que surge o primeiro questionamento mais profundo à ideologia da “democracia racial”, contestada como um instrumento de escamoteamento do racismo. O mito da Princesa Isabel como “libertadora” e do 13 de Maio como dia da “libertação” é pisoteado, e em seu lugar emerge a história do Quilombo de Palmares e do dia da morte de Zumbi, 20 de Novembro como referência de luta. Ainda, no âmbito organizativo, em 1978 fundam o MNU (confira Petrônio DOMINGUES, 2007: 2008).
A emergência desse movimento negro está profundamente ligada à política repressiva criada pela ditadura militar para conter o enorme agravamento do problema da moradia a partir da explosão das favelas como subproduto do enorme êxodo rural nas décadas de 50, 60 e 70, agravado em função do boom de crescimento econômico nas cidades durante o “milagre brasileiro”, o qual contribuiu para o desenvolvimento do novo proletariado urbano que vai protagonizar o ascenso grevístico que se desenvolve a partir de 1978.
Os grupos de extermínio paramilitares criados pela ditadura utilizando policiais tinham como função primordial, além da perseguição e do assassinato a operários combativos, a imposição do clima de terror nas favelas contra o povo pobre e negro para impedir a organização e a ação política dos setores mais postergados do proletariado, submetidos a condições de vida humilhantes que provocavam explosões sociais permanentes.

O “marxismo” do PCB e a questão negra
No Brasil funda-se em 1922 o PCB, este partido em toda sua historia jamais incorporou as lutas e demandas da população negra em sua estratégia. Octávio Brandão, um dos principais dirigentes do PCB escrevia entre 1924 e 1926 no Agrarismo e Indrustrialismo que no Brasil havia “uma mistura desordenada de raças e sub-raças”. No marco de alianças intencionada pelo PCB não se considera a população negra como sujeito político, abandonado a defesa de suas demandas históricas, desconsiderando que tal população constitui maioria da classe trabalhadora nacional, sem a qual não se pode realizar uma revolução proletária. Diametralmente oposto a isto, para Brandão “O trabalhador rural negro, proveniente do escravo, exatamente como o vilão-servo da Idade Média”. (p. 50). Caio Prado Junior, no Formação Econômica do Brasil Contemporâneo classifica a população negra como “boçais”, desprovidos de técnicas etc.
O PCB nunca consegui incorporar as demandas da população negra como parte de sua estratégia, pois foi sempre refém de setores da burguesia descendente dos escravocratas. Devemos levar em conta que o PCB seguia as determinações da Internacional Comunista stalinizada, que considerava que nos países coloniais e semi-coloniais os PCs deveriam fazer alianças com setores da burguesia para livras estes países dos resquícios feudais. Por conta dessa estratégia etapista, o PCB ao invés de compreender as demandas da população negra e seus descentes como parte fundamental para desencadear uma revolução no país, entendia como fundamental o apoio de setores da burguesia dita “progressista”. Se tomasse como fundamentais as demandas da população negra no campo, seria necessário romper com toda ordem de latifundiários e patrões agrícolas. O PCB não queria isso, pois buscava alianças com parte desses. Assim, nunca pôde empreender as lutas sociais baseando-se na independência de classe.
Seguindo esta estratégia de adaptação a setores da burguesia agrária, urbana e financeira, o PCB deu as costas as demandas do povo negro do campo, das cidades e periferias, ainda em momentos de ascenso buscava freiar a auto-organização do povo negro no campo e nas cidades, como o PCB depositava esperanças em setores da burguesia, como se estes setores fosse realizar as demandas históricas do povo negro com sua estratégia etapista, ainda hoje esse partido não tem um balanço adequado sobre a questão negra. Ainda hoje é comum deslegitimar as demandas e lutas negras como formas que causam dispersão e que não servem a nada para a emancipação humana.

Uma saída revolucionaria para a questão negra
A população negra constitui parte fundamental do proletariado brasileiro. A esmagadora maioria da população negra brasileira é proletária, está distribuída no mais variados ramos da produção, distribuição e circulação de mercadorias. No entanto, sua ampla maioria está concentrada nos trabalhos mais precários e mal remunerados da sociedade brasileira, constituem os setores mais oprimidos e explorados da classe trabalhadora, constituem certamente a maior parcela do exército industrial de reserva. São a maioria nas periferias, favelas, morros, etc. Constituem maioria da população abaixo da linha da pobreza. São os maiores alvos da policia, constituindo a maioria dos assassinados pela policia e violência urbana. No campo, tanto os trabalhadores rurais como os quilombolas são os principais alvos dos fazendeiros, agronegócio e de seus jagunços. Podemos intuir que uma parcela minoritária está concentrada nas indústrias do país. Dentre as principais demandas da população negra está a reforma agrária, reforma urbana, fim da repressão e opressão policia, igualdade econômica social e combate ao racismo.
Sem incorporar todas essas demandas ao programa socialista é impossível conseguir a unidade das fileiras da classe trabalhadora, e assim, construir a hegemonia proletária socialista. Devemos nos somar na defesa das demandas particulares (direitos civis, direitos políticos, interesses culturais, interesses econômicos) buscando fundi-las com o programa histórico do proletariado. As condições objetivas da população negra no Brasil devem ser compreendidas como condições objetivas de setores da classe em si. É necessário compreender sua potencialidades agregadoras para unidade do proletariado. Sem essa compreensão, os revolucionários não serão capazes de transformar as percepções da classe em si, e toda sua potencialidade, em classe para si.
Classe em si diz respeito as condições objetivas, concretas, reais impostas as classes sociais. Enquanto classe para si diz respeito as potencialidades inerentes da classe. Ou seja, além das percepções objetivas, a compreensão das potencialidades resolutivas que as condições objetivas predispõem e os sujeito coletivo pode implementar para si sobre sua própria hegemonia. Ou seja, como sugerimos anteriormente, para uma revolução socialista no Brasil, é necessária uma fusão revolucionária entre o programa histórico do proletariado internacional e as demandas do povo negro.
Ao invés de entendemos as demandas da população negra como campanhas pontuais é necessário compreender que sem a auto-organização e mobilização do povo negro não pode haver uma revolução socialista no Brasil. Tanto por ser o maior país de população negra fora da África como por se encontrar em uma condição de elo débil da cadeia imperialista que tem nos EUA seu principal hegemón, os negros brasileiros podem e devem colocar-se a tarefa de ser vanguarda da luta pela emancipação do povo nego subjugado pelo imperialismo tanto na África como em todos os demais países do mundo para os quais foram deportados. Esse ponto de vista internacional para a luta negra foi completamente perdido e é necessário ser resgatado.
Devemos partir de que a luta contra a opressão racial ao povo negro na história do movimento operário brasileiro nunca foi encarada como uma tarefa que deveria ser resolvida pela ação independente da casse trabalhadora através de suas organizações de massa, baseada nos métodos da luta de classe e da hegemonia proletária. Além de lutar pelas demandas imediatas do povo negro (emprego, cotas, saúde, moradia, educação), devemos seguir denunciando as formas descaradas de racismo e o racismo encoberto pelo discurso da “democracia racial”, deve necessariamente partir também de uma crítica marxista às distintas vertentes da política de ações afirmativas e a como essas são encaradas pelas correntes que se reivindica parte da esquerda.
Frente ao reacionarismo das classes dominantes, uma corrente revolucionária deve estar na primeira linha de frente em defesa até mesmo das pequenas demandas concedidas pelo governo através das ações afirmativas caso essas estejam ameaçadas de serem atacadas. Entretanto, essa defesa deve se dar com os métodos da luta de classes – combatendo todo método conciliador que aceita restringir sempre um pouco mais as já parcas migalhas para chegar a acordos pacíficos com as elites racistas do país –, não pode se confundir em nenhum milímetro com o programa e a estratégia reformista dos que defendem as ações afirmativas. Para nós, as demandas mínimas específicas do movimento negro devem se colocar no marco de direitos universais que beneficiem toda a população negra, em especial a maioria mais pobre. Na medida em que são encaradas como demandas de direitos universais, as reivindicações mínimas do povo negro adquirem imediatamente um caráter mobilizador da luta de classes, pelo qual apoiamos incondicionalmente tais demandas.
Nesse marco, a principal demanda que hoje deve impulsionar um programa de luta contra a opressão é o fim do trabalho precário na cidade e no campo, com a incorporação dos terceirizados, temporários e informais como parte das empresas em que trabalham (sem necessidade de concurso no caso do serviço público), com salários e direitos iguais para trabalhos iguais e um salário mínimo equivalente ao do Dieese; entendendo que os mais beneficiados por essas medidas não serão os trabalhadores mais organizados que se encontram filiados aos sindicatos mais fortes, mas sim a maioria negra do país, que sofre com os piores trabalhos.
A segunda tarefa essencial pela qual devemos lutar é para que os sindicatos da esquerda tomem para si o problema das enchentes e das favelas em todo ano assola o país, impulsionando uma campanha pela expropriação (sem indenização) dos imóveis destinados à especulação imobiliária e por um plano de obras públicas controlado pelos sindicatos que acabe com as favelas e as enchentes, dando condições de moradia digna para todos, gerando empregos massivos ao mesmo tempo. E como terceira tarefa essencial, devemos lutar para que os sindicatos da esquerda impulsionem uma campanha permanente contra a repressão policial ao povo negro e pobre nas favelas, defendendo a dissolução da polícia e a criação de organismos de autodefesa ligados aos sindicatos e associações de moradores.
Por último, os sindicatos da esquerda anti-governista devem defender uma ampla reforma agrária e acesso a crédito barato para aqueles que querem plantar, combinado com a titulação das terras quilombolas e a abertura de frentes de trabalho coletivo em empresas estatais no campo controladas pelos operários agrícolas para o abastecimento de alimento às cidades. Ligado ao anterior, é necessário defender a criação de “cordões verdes” no entorno das grandes cidades, que não só combine empresas agrícolas estatais e repartição de terras de qualidade e boa localização aos camponeses pobres, mas que também amplie o potencial de solução do adensamento demográfico nas cidades e dê uma solução mais de fundo para acabar com os desastres humanitários e ecológicos provocados pela urbanização anárquica do capitalismo.
Tanto o plano de obras públicas como o crédito barato aos camponeses pobres ou as empresas agrícolas estatais devem ser financiadas com o dinheiro hoje utilizado para pagar juros e amortizações da dívida pública. Esse programa, tomado com um todo, de conjunto deve estar a serviço de colocar de pé as batalhas parciais que vão forjar uma vanguarda que, a partir de sua experiência concreta na luta de classes, deve concluir a necessidade de expropriar a burguesia, planificar a economia e lutar pelo socialismo em nível internacional.
Referência
BADARO MATTOS, M. Experiências comuns: escravizados e livres no processo de formação da classe trabalhadora no Brasil. 2007.
______. Trabalhadores escravizados e livres na cidade do Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. In: Revista Rio de Janeiro, n. 12, jan-abril 2004.
DOMINGUES, P. Movimento negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. 2007.
______. Movimento negro brasileiro: história, tendências e dilemas contemporâneos. 2008.
LAMOUNIER, M. L. Entre a Escravidão e o Trabalho Livre - escravos e imigrantes nas obras de construção das ferrovias no Brasil no Século XIX. 2008.
LENIN, V. I. Capitalismo e agricultura nos Estados Unidos da América. Editora Brasil Debates. 1980.
 MAESTRI, M. Cisnes negros – uma história da revolta da chibata. Editora moderna.
MARX, K. O Capital. Civilização brasileira, 1975.
______. A ideologia alemã. Boitempo, 2007.
______. A guerra civil norte-americana. In: Liberdade de imprensa, L&PM, 2009.
______. Para a questão judaica. Boitempo.
______. Manifesto do Partido Comunista. 2004.
MORAES, J. Q. A esquerda militar no Brasil. Editora expressão popular.


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Jama Libya disse...

1 parte REVOLUÇÃO QUILOMBOLIVARIANA! 1
Manifesto em solidariedade, liberdade e desenvolvimento dos povos afro-ameríndio latinos, no dia 01 de maio dia do trabalhador foi lançado o manifesto da Revolução Quilombolivariana fruto de inúmeras discussões que questionavam a situação dos negros, índios da América Latina, que apesar de estarmos no 3º milênio em pleno avanço tecnológico, o nosso coletivo se encontra a margem e marginalizados de todos de todos os benefícios da sociedade capitalista euro-americano, que em pese que esse grupo de países a pirâmide do topo da sociedade mundial e que ditam o que e certo e o que é errado, determinando as linhas de comportamento dos povos comandando pelo imperialismo norte-americano, que decide quem é do bem e quem do mal, quem é aliado e quem é inimigo, sendo que essas diretrizes da colonização do 3º Mundo, Ásia, África e em nosso caso América Latina, tendo como exemplo o nosso Brasil, que alias é uma força de expressão, pois quem nos domina é a elite associada a elite mundial, é de conhecimento que no Brasil que hoje nos temos mais de 30 bilionários, sendo que a alguns destes dessas fortunas foram formadas como um passe de mágica em menos de trinta anos, e até casos de em menos de 10 anos, sendo que algumas dessas fortunas vieram do tempo da escravidão, e outras pessoas que fugidas do nazismo que vieram para cá sem nada, e hoje são donos deste país, ocupando posições estratégicas na sociedade civil e pública, tomando para si todos os canais de comunicação uma das mais perversas mediáticas do Mundo. A exclusão dos negros e a usurpação das terras indígenas criaram-se mais e 100 milhões de brasileiros sendo este afro-ameríndio descendente vivendo num patamar de escravidão, vivendo no desemprego e no subemprego com um dos piores salários mínimos do Mundo, e milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo as maiores vitimas da violência social, o sucateamento da saúde publica e o péssimo sistema de ensino, onde milhões de alunos tem dificuldades de uma simples soma ou leitura, dando argumentos demagógicos de sustentação a vários políticos que o problema do Brasil e a educação, sendo que na realidade o problema do Brasil são as péssimas condições de vida das dezenas de milhões dos excluídos e alienados pelo sistema capitalista oligárquico que faz da elite do Brasil tão poderosas quantos as do 1º Mundo. É inadmissível o salário dos professores, dos assistentes de saúde, até mesmo da policia e os trabalhadores de uma forma geral, vemos o surrealismo de dezenas de salários pagos pelos sistemas de televisão Globo, SBT e outros aos seus artistas, jornalistas, apresentadores e diretores e etc..Movimento Revolucionário Socialista QUILOMBOLIVARIANO
vivachavezviva.blogspot.com/
quilombonnq@bol.com.br
Organização Negra Nacional Quilombo
O.N.N.Q. Brasil fundação 20/11/1970
por Secretário Geral Antonio Jesus Silva

Jama Libya disse...

2 Parte
Manifesto da Revolução Quilombolivariana vem ocupar os nossos direito e anseios com os movimentos negros afro-ameríndios e simpatizantes para a grande tomada da conscientização que este país e os países irmãos não podem mais viver no inferno, sustentando o paraíso da elite dominante este manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder Zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construí dor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar as histórias dos nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Oswaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam.Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Argentina, Boliviana, Peruana, Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma,não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução Quilombolivariana e bradaram Viva a,Viva Simon Bolívar Viva Zumbi, Viva Che, Viva Martin Luther King,Malcolm X Viva Oswaldão, Viva Mandela, Viva Chávez, Viva Evo Ayma,Rafael Correa, Fernando Lugo, Viva a União dos Povos Latinos afro-ameríndios, Viva 1º de maio, Viva os Trabalhadores do Brasil e de todos os povos irmanados.
Movimento Revolucionário Socialista QUILOMBOLIVARIANO
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