Combate Classista

Teoria Marxista, Política e História contemporânea.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Resenha "Manuscritos Economico-filosoficos"

Alessandro de Moura
Trata-se ainda de um rascunho para um resenha. O texto "Manuscritos Economico-filosoficos" foi escrito no início de 1844, nunca fora publicado pelo autor, embora várias passagens do texto podem ser observadas em outras obras do autor, como por exemplo, no livro 1 do capital. Sabe-se hoje que era hábito de Marx consultar seus manuscritos antes de escrever uma obra. O texto foi encontrado quando a família de Marx (filha e genro) enviaram todos seus textos para a união soviética, para o museu “Marx-Engels”, Ryazenov trabalhou na tradução e publicação dos escrito até a intervenção de Stalin. Os manuscritos de Paris, como também é comum a referência pode ser dividido em três partes: Manuscrito 1, Manuscrito 2, Manuscrito 3. Aqui nos detemos a análise do Manuscrito 1. O autor faz critica profundas e estruturais a economia política, destacando esta como substrato teórico do capitalismo, como uma das mais importantes expoentes do status quo burguês.

No capitalismo, com a separação do trabalhador dos meios de produção, estabelece-se uma relação de dependência entre trabalhador e capitalista, que beneficia largamente o capitalista e aprisiona o trabalhador em uma forma de vida unilateral. O emprego no capitalismo torna-se “apenas” um meio de vida do trabalhador. Mas o capitalista ainda pode, de maneiras qualitativamente distintas, nos diferentes períodos de desenvolvimento do capitalismo impor-se como herói, que oferece trabalho e meios de existência ao trabalhador.

Por conta de tal relação em períodos de crise, os trabalhadores são levados a enxergar ao capitalista como parceiro e a outros trabalhadores, depossuidos de produção como ele mesmo, como adversários, com isso deixa de lado a dominação do capital sobre o trabalho. Isso dificulta sobremaneira as possibilidades de desenvolvimento de solidariedade entre os trabalhadores e a agir como classe, principalmente em períodos de crise do capitalismo. Desta forma os períodos de crise econômica não podem ser colocados mecanicamente como períodos revolucionários. Já, por outro lado, o capitalista sempre age como classe, e ainda, tenta impedir que os trabalhadores façam o mesmo.

O capitalista aproveita-se da luta entre os trabalhadores, para que a concorrência entre eles faça baixar os salários e aumentar os lucros. Com isso, o capitalista tenta pagar os menores salários possíveis. Desta forma, quanto mais trabalho disponível existir, mais o capitalista se beneficia, pois pode, com maior tranqüilidade, baixar os salários dos trabalhadores que é encarada como a taxa que o capitalista tem que pagar para utilizar-se das capacidades produtivas de outros seres humanos.

O trabalho não pode sobreviver sem objetos
Analisando as elaborações de Smith, Ricardo e Say, Karl Marx evidencia que o trabalhador foi convertido em mercadoria que produz mais mercadorias a baixo custo. Destaca que o trabalhador nunca recebe o valor integral do produto de seu trabalho. E que, nesse sentido, o trabalhador sempre entrará em uma relação de prejuízo com o capitalista proprietário de meios de produção e fornecedor de empregos e de misérias.

Marx destaca que é justamente por estar em condição de ser humano expropriado de meios de produção, que durante toda vida o trabalhador se vê obrigado e condicionado a engajar-se em luta dupla; 1º) pela manutenção de suas necessidades física-corpóreas básicas, e 2º) no sistema capitalista este trabalhador depossuido de meios próprios de produção deve lutar para manter-se empregado para alguém que possua meios de produção. Por intermédio da negação destas formas sociais que negam a realização humana, Marx conduz-nos a pensar a possibilidade de que todo ser humano possa ter livre acesso aos meios de produção para a satisfação das necessidades sócio-humanas.

Marx aponta que o trabalhador, despojado de meios de produção, tende a ser subsumido no interior da ordenação social do sistema capitalista. Isso tanto nos períodos de grande prosperidade social (como na hipótese do pleno emprego, na acepção de Keynes), como nos períodos de estabilidade (ou estagnação econômica) e principalmente nos períodos de crise econômica.

Marx destaca que os ciclos econômicos têm distintos impactos sobre as distintas classes sociais. Embora o trabalhador sempre entre em relação de prejuízo com o capitalista, não que dizer que tal relação seja estática, pois para o autor esta relação se altera historicamente de forma qualitativa, Marx destaca três tipos de situações recorrentes no capitalismo: a miséria crescente, miséria em diminuição e a situação de miséria estacionária. Nos períodos de miséria crescente (ou de crise) não apenas a multidão de trabalhadores quem sofre. O capitalista também recebe seus impactos, sofrendo economicamente em sua existência como investidor, proprietário de meios de produção, de mercadoria e como agente econômico. O trabalhador, por outro lado, sofre em sua existência física-material objetiva, ou seja, enquanto ser orgânico-natural, que é privado do essencial à manutenção de sua existência física cotidiana. Desta forma, na relação imediata com o capitalista o trabalhador sempre perde (mais valia), mas em momentos de crise perde mais ainda, pois arrisca gravemente a continuidade de sua vida. Nesse sentido, Marx define o emprego na sociedade capitalista como o intermediário entre o ser humano despossuído de meios de produção e a realização de suas necessidades naturais, sua própria existência física.

Mas se em momentos de crise, de intensificação dos monopólios, e de expropriação dos pequenos capitalista pelos grandes capitalistas, o trabalhador sob dominação da burguesia tem sua existência arriscada, em momentos de prosperidade produtiva e desenvolvimento social geral essa possibilidade não é superada, mas apenas atenua-se.

Em momentos de grande prosperidade social, que pode conduzir a uma situação de falta de mão-de-obra disponível (matéria prima do capital) para ser explorada, pode haver aumentos salariais, mas estes não se efetivam sem contrapartidas, pois com salários mais altos os trabalhadores têm que produzir mais em grau de intensidade de trabalho e dedicação intensificado. Com isso faz-se com que o trabalhador aliene maior parte de suas capacidade e energias para a produção de mercadorias para terceiros, donde se desdobram três elementos importantes:

1º O trabalhador desgasta-se mais com maior rapidez, trabalha como máquina e diminui seu tempo de vida útil a produção de mercadorias/valores (entre os sintomas deste desgaste podemos destacar a ler-dort.

2º O trabalhador é privado ainda mais de suas liberdades e do livre emprego de suas capacidades física-psíquicas, bem como é apartado do convívio social.

3º O trabalhador, proporcionalmente, quanto mais produz menos retém para si mesmo, e mais aliena para outro que não ele . O aumento da produção não é revertido necessariamente em aumentos salariais ou benefícios diretos aos trabalhadores.

Além disso, pode-se destacar também, a utilização das capacidades humanas para produzir em troca do que comer, subalterniza-se os trabalhadores aos interesses dos possuidores de meios de produção, faz com que o ser humano consiga o sustento apenas por meio de uma atividade compulsória, contrária a seus interesses sócio-individuais. Ou seja, para conseguir ter acesso a alimentos, roupas e moradia o trabalhador, despojado de meios de produção vê-se obrigado a sujeitar-se a realização dos desejos e demandas do empregador possuidor de meios de produção. Este é apartado de sua liberdade genérica, que inclui produzir para além de sua subsistência imediata. Faz com que o trabalhador, convertido em empregado trabalhe como se fosse uma máquina qualquer a serviço do capitalista alugador de mão-de-obra, poder se escolha e de decisão, os trabalhadores são sempre os últimos na hierarquia social.

E, por outro lado, mesmo que o trabalhador esteja praticando uma atividade que lhe proporcione determinada satisfação, em períodos de aumento de demanda e pressão por maior produtividade, para que se realizem mais vendas e a empresa alcance maiores lucros, o trabalhador terá, quase que compulsoriamente que ceder a convocação da empresa. Desta forma, mesmo desenvolvendo uma função que lhe proporciona determinado prazer, o trabalhador ainda não está livre para exercê-la de acordo com sua vontade, pois não tem o controle sobre sua própria jornada de trabalho, mesmo na profissão que escolheu, se trabalha para outrem, não pode exercê-la com liberdade, de acordo com seu próprio ritmo ou individualidade, pois na condição de empregado sua atividade está sob controle de outro que não ele, entregue aos sabores do mercado, que faz também da atividade escolhida mesmo que livremente, uma atividade unilateral e compulsória.

Mesmo em tais condições, no trabalho, o trabalhador é considerado sempre como um apêndice da máquina, como um predicado da mercadoria que ele mesmo produz. Marx ainda destaca que tal contradição não se restringe ao local de trabalho, pois fora do trabalhão o trabalhador também é baixado a condição de um componente fabril.

Agrava a situação o fato de a escolha do emprego de acordo com a vocação está restrita a uma minoria. Desta forma a inevitabilidade emprego aos despossuidos de meios de produção, faz com que o emprego imponha-se como compulsório e sofrível, considerando que o ser humano, mesmo na mais ferrenha situação de subalternização continua ainda animal teleológico, ser insaciável.
A despossessão de meios de subsistência, e por conseqüência o entregar-se ao emprego, reduz o ser humano um ser que trabalha em troca da subsistência, este afirma-se como a mercadoria mais frágil do universo social e da imensa coleção de mercadorias que é a sociedade capitalista. É uma mercadoria sensível, consciente de sua liberdade potencial, de sua capacidade teleológica, mas quando está no trabalho não está para si, tal atividade compulsória faz-se sofrível sempre, pois contraria suas perspectivas (aspirações e planos) de objetivação de sua interioridade.

Essa subalternização no local de trabalho ao dono dos meios de produção, reproduz-se também fora da esfera do trabalho, pois o capitalista, que secreta e administra trabalho acumulado, adquire também imenso poder político-social. É claro que este só se faz poderoso porque fez-se possuidor de capital, e como ele, possuidor de poder de compra (e de mando). Poder este que, no capitalismo, nada pode se opor. O possuidor de capitais, com poder de mando e governo, acaba por administrar o trabalho social, criando para isso, sempre em favor próprio, um sistema social, jurídico, político e ideológico.

Marx destaca também que os capitalistas não são homogêneos, não se trata de um bloco social harmônico. Existem os grandes, os médios e os pequenos capitalistas, com poder de mando e influências hierarquizadas. As alianças estabelecidas entre este três extratos sociais são múltiplas (e por vezes voláteis). Os grandes capitalistas, como mais capital acumulado (que é trabalho não pago) é que têm maio poder social, estes têm vantagens não apenas sobre os trabalhadores de quem exploram mais valia, mas também sobre os médios e pequenos capitalistas. De forma geral, a partir do texto, pode-se dizer que: trabalhadores, pequenos e médios capitalistas são subordinados aos interesses dos grandes capitalistas.

Marx chama atenção para outro fator interessante a ser considerado ao analisa as relações de poder no capitalismo. Para o autor, os interesses dos capitalistas em grande medida subalternizam não apenas os trabalhadores, mas também, em diferentes medidas os pequenos e médios capitalistas. Então a ação social dos capitalistas está sempre em posição hostil à da maior parcela da sociedade. O poder dos grandes capitalistas, além de ser anti-proletário, é também anti-social e anti-democrático.

Nesse sentido, o capitalista estabelece sempre relação parasitária e utilitarista para com o restante da sociedade, da mesma forma como estabelece relações parasitárias e utilitaristas com a terra, seus produtos e da natureza de forma geral, o capitalismo, sobre a égide do burguês converteu tudo a valor de troca, tudo em mercadoria.

Marx reafirma ainda que sua contribuição para a compreensão desta realidade tem certa restrição, pois a propriedade privada, a separação entre trabalho, capital e terra, bem como entre o salário e o lucro do capital e a miséria do trabalhador são pressupostos já evidenciado pelos pressupostos da economia política.

Já sobre tais pressupostos, afirma Marx, é possível constatar que o trabalhador receberá sempre a menos parte do produto total, apenas o suficiente para manter-se vivo como trabalhador, e não como ser humano, desta forma se não trabalha não receberá o que comer. Situação esta agravada pela disputa entre os capitalistas, nestas condições os possuidores de meios de produção cada vez mais, guerreiam também entre si (e não apenas contra os trabalhadores), até expropriarem uns aos outros, estás disputas têm seu ônus maior sobre os trabalhadores, pois estes são os últimos na hierarquia social, assim recebem todos os impactos e efeitos das disputas econômicas-políticas.

Nesse movimento a “classe” dos trabalhadores aumenta e os capitalistas concentram-se em grupos menores, até que se expanda o mercado, abrindo novos ciclos produtivos e de acumulação, com períodos de pleno emprego dos fatores de produção. Marx acentua que nesse processo é possível distinguir claramente duas “classes” com interesses e poder social-político distintos e verticalizados, a “classe” dos proprietários e a “classe” dos trabalhadores despossuídos de meios de produção.

Também a economia política pôde fazer tal constatação, porém, segundo o autor, ela esquivou-se de explicar como se desenvolveu este processo social, por isso a burguesia e proletariado figuram como constituições mágica-abstratas sobrenaturais. Utilizando-se de fórmulas abstratas e leis gerais, a economia política deixa de lado, como dogmas incontest, a origem e essência da propriedade privada, da separação entre trabalho, capital e terra, assim como o faz em relação ao salário, lucro, capital e a miséria do trabalhador. Afirma o autor que a economia nacional “não nos dá esclarecimento algum a respeito do fundamento (Grund) da divisão entre trabalho e capital e terra” (p. 79). A concorrência, a ganância e o egoísmo são os princípios explicativos da desigualdade entre os seres humanos.

Sempre que há um aumento salarial conduzido pelas leis de mercado ocorre também um aumento de trabalho (absoluto ou relativo). Soma-se a isso que sempre que há um aumento salarial ocorre também um processo de diminuição (relativa ou absoluta) de restrição das liberdades humanas (um exemplo aumento de renda do trabalhador por meio do salário por peça). Com a intensificação e extensão da jornada de trabalho, mesmo que se tenha certo aumento salarial, acaba-se por encurtar o tempo de vida do trabalhador.

Nesse sentido, uma parte da classe trabalhadora acaba por engajar-se em extinguir-se a uma parte de si mesma. O que embora diminua o tempo de vida, acaba por fazer, sofrivelmente com que se libere postos de trabalho para outros proletários em situação de não-emprego e não-salário, por meio de tal reflexão, Marx constata que a classe trabalhadora sob dominação burguesa necessita “sempre de sacrificar uma parte de si mesma, para não perecer totalmente”. (p. 26).

Para que uma sociedade progrida é necessário que se tenham muitos seres humanos trabalhando, e muita mais-valia sendo convertida em capital. Sempre que se moderniza o processo produtivo aumenta a quantidade de trabalho não pago. A divisão do trabalho aumenta relativamente o número de trabalhadores disponíveis.

A divisão do trabalho aumenta a extração de mais-valia. E nessa relação os trabalhadores tornam-se cada vez mais dependentes de emprego, que é para Marx nos Manuscritos de Paris uma forma de trabalho muito unilateral e maquinal. O emprego tende a reduzir o ser humano a uma atividade abstrata e des-subjetivadora, restrita carente de sentido realizador, o ser humano dotado de capacidades e potencialidades múltiplas é reduzido à busca por alimentos, a trabalhar em troca do que comer. É forçado, por condições objetivas imposta homens (concentradores de meios de produção) a dedicar toda sua potencialidade à busca de meios para suprir as necessidades de sua barriga, é reduzido à busca da realização de necessidades naturais objetivas que se põe frente a este como compulsórias. Além disso, o ser humano despossuido de meios de produção, atirado ao mercado empregatício e ao salariato, torna-se também vitima principal das oscilações do movimento do capital e da economia do País onde vive, ao passo que esta é determinada pela especulação e dos interesses dos grandes e médios possuidores de capital, renda e terra.

Nesse sentido, o ser humano - trabalhador empregado – é obrigado a abdicar de autonomia e do controle de sua própria vida, abrindo mão de parte considerável de seu tempo de vida, de seu corpo, sua criatividade em beneficio de outro que não é o trabalhador. O ser humano despojado de meios de produção fica privado de uma infinidade de possibilidades de fruição e do não-emprego

Com o aumento populacional e o conseqüente aumento da mão-de-obra disponível para ser empregada e explorada, aumenta também a desvalorização do ser humano, principalmente dos que vivem da venda de sua própria capacidade de produzir coisas. Com o aumento do número de seres humanos exploráveis desvaloriza-se o próprio valor do aluguel das capacidades humanas, caem os salários e faltam empregos. Desta forma, estabelecesse uma relação de inversão, pois sempre quando há aumento populacional é possível verificar o declínio dos salários e a pauperização das condições de vida dos seres humanos que só possui a força de trabalho como meio de troca. O ápice desta relação é o sistema produtivo fabril seriado, que ao potencializar a capacidade produtiva humana, faz também, por outro lado, aumentar a mão-de-obra excedente, disponível para ser explorada, o que por sua vez também conduz a um declínio dos salários.

O autor também destaca que mesmo em período de grande prosperidade social, ou desenvolvimento progressivo, períodos em que pode haver aumento da população assalariada ou aumentos salariais, não são os trabalhadores os maiores beneficiários, a regra geral do capitalismo determina que o trabalhador não pode ser o beneficiado no sistema capitalista. O trabalhador entre sempre numa relação ganha-perde. A estruturação do capitalismo não o permite que o trabalhador seja o maior beneficiado com o capitalismo, mas este processo não pode ser simplificado.

Em períodos de grande prosperidade social os capitalistas são quem ganham mais. Porém nestes períodos, em que há concentração maior de capital e riquezas (terras, máquinas, tecnologias e especulação), desenvolve-se também como conseqüência factível, um processo em que capitalistas expropriam outros capitalistas (e não ‘apenas’ trabalhadores), com isso, uma parte dos pequenos capitalistas acabam por se arruinar, e ainda, terminam por baixar à condição material-objetiva da classe trabalhadora, diminuem sua influência, status, poder de consumo e influencia no sistema produtivo-regulatório e logo, de dominação.

Estes pequenos capitalistas que se arruínam e baixam á classe trabalhadora vão disputar cargos com trabalhadores despossuidos de meios de produção. O que por sua vez faz aumentar o contingente de trabalhadores disponíveis a exploração, e este aumento de contingente na “classe” faz novamente com que caiam os salários dos trabalhadores e deflagre-se processos de demissões e eliminação de postos de trabalho e. E no processo total, de forma mais ampla, poucos e grandes capitalistas obtêm maiores lucros e também maior controle social. Ao passo que aumenta a pobreza e outros males que assolam os despojados de meios de produção.

Também, quanto mais trabalhadores disponíveis ao capital, menor é a concorrência entre capital e trabalho, considerando que o número de capitalistas diminui objetivamente (numericamente). Antes disso, nesses períodos excesso de mão-de-obra disponível ao capital e falta de empregos, intensifica-se a luta entre os próprios trabalhadores. Esta faz também agudizar podendo assumir inclusive formas de manifestação violentas (pode-se aumentar os roubos, seqüestros, extorsão, assaltos e assassinatos, abrem-se períodos de intensa disputa em que o pobre projeta-se contra o pobre. Nesses processos “uma parte da classe trabalhadora (Arbiterstand) cai, assim, necessariamente na classe dos miseráveis ou mortos de fome (Bettel-oder verhungerungstand), tal como uma parte dos capitalistas médios [decai] na classe trabalhadora”. (p. 27).

Entre as frações da burguesia também intensificam-se as disputas, estas são expressas também pelo aumento dos crimes de colarinho branco, mais comum a tal fração social, pode-se observar então o aumento das falências fraudulentas, lock-aut, disseminação do golpes políticos, corrupção, estelionato, chantagens, desvios de recursos, superfaturamentos, etc.

Por outro lado, em períodos de riqueza progressiva, período em que podem decorrer aumentos salariais como forma de fazer com que os despossuidos de meios de produção engajem-se com ímpeto na produção, pode-se fazer com que desperte objetivamente no também no trabalhador um modo de ser característico do capitalista, no trabalhador também desenvolve o desejo de acumular por meio do trabalho extenuante, da avareza ou poupança exacerbada. Nos termos de Marx “(...) desperta a obsessão do enriquecimento [típica] do capitalista”. (p. 27). Porém para dar vasão a tais desejos, o trabalhador despossuido de meios de produção necessita sacrificar seu corpo e seu espírito, engaja-se ativamente na destruição e perecimento de seu próprio corpo, de seu espírito e de suas relações sociais, que passam a ser centradas predominantemente nas relações de produção.

Nesse sentido, o trabalhador acaba por colaborar par o fortalecimento do capitalistas e do mundo exterior que o defronta hostilmente, pois há de se considerar que nos períodos de riqueza social progressiva só são concedidos aumentos salariais por que foi verificado aumento produtivo, aumento dos lucros e principalmente falta de mão-de-obra disponível para ser explorada, que possa trabalhar a baixos preços, com isso, por outro lado, aumenta a acumulação do capitalista e a concentração de renda. Fortalece-se o mundo das coisas que se volta contra os despossuidos de meios de produção.

Nestas condições o trabalhador é reduzido à condição de máquina (e esta torna-se então sua concorrente direta). O que problematiza tais períodos de riqueza social progressiva é que estes no capitalismo sempre gestam no interior de seu processo os períodos de crise, recessão e desemprego em larga escala. Com a prosperidade social crescente, aumenta também o desejo capitalista de domínio dos mercados para potencialização dos lucros pessoais e de maior concentração de capitais. Soma-se a isso que ao constatar a falta de mão-de-obra e o encarecimento desta mercadoria, segue-se a introdução de máquinas e tecnologias, como forma de poupar trabalho e aumentar a extração de mais valia e sair na frente de outros capitalistas. Aumenta-se com isso o desemprego e baixa-se os salários, além disso, geram-se cisões no seio da “classe” trabalhadora.

A situação de desenvolvimento social progressivo, de crescimento econômico e “pleno emprego dos fatores de produção” é em curto prazo menos prejudicial ao trabalhador, pois são períodos marcados pela miséria estacionária do trabalhador (p. 30), a fome é controlada, mas tal quadro é sempre conjuntural (1850 – 1870, 1940 - 1970), sendo que em longo prazo sempre perde mais o trabalhador, pois haverá sempre, nestas situações, além da degradação acelerada dos trabalhadores (física e espiritual), tem-se também maior concentração de capitais, o que por sua vez leva a intensificação da concorrência entre capitalistas e a introdução de técnicas e tecnologias que poupam trabalho, dispensam trabalhadores e aumenta o contingente de seres humanos desempregados que não tem com manter-se vivos, o que é agravado pela quantidade de pequenos capitalistas arruinados que baixam a condição da classe trabalhadora e lhes “tomam” os postos de trabalho.

Segue-se a tais períodos a degradação das condições de vida da população que vive da venda de sua força de trabalho, com possível esgarçamento das relações sociais, com aumento da mendicância, indigência, e da mortalidade infantil e de idosos, com possível diminuição da taxa de natalidade. Também pode ser que se verifique em tais conjunturas aumento de roubos, assaltos, com processos de intensa disputa por alimentos e por manter-se vivo a todo custo, em que trabalhadores (desempregados) e sem renda projetam-se contra o pobre, ou se entregam a toda sorte de trabalhos degradantes e arriscados em troca de ‘um prato de comida’.

Na sociedade em situação regressiva, com taxa de natalidade negativa, com conseqüente falta de mão-de-obra disponível, aumenta-se os salários, porém o trabalhador tem que trabalhar e produzir em larga escala, dobrando, triplicando resultados, desta forma expande-se a miserabilidade das condições de vida, de ser no mundo (Dasein), do ser humano em condição de trabalhador.

Na sociedade em situação progressiva, com aumento populacional acima do necessário a ocupação dos postos de trabalho, baixa-se os salários, aumenta a concorrência entre os trabalhadores. Também aumentam a miséria, a fome, os saques a violência policial, e também a violência dentro da própria classe, enquanto, por outro lado, o capitalista enriquece.

Na sociedade estacionária, situação de pleno emprego dos fatores de produção, tem-se certo controle da miséria, fome, desemprego. (p. 28). Os capitalistas vêem-se obrigados a pagar maiores salários para assegurar que a produção e a extração de mais valia se efetive, para que assim as vendas e os lucros se realizem. Os salários aumentam em situação de falta de mão-de-obra posta objetivamente. Mas o capitalista sempre busca assegurar a extração de mais valia, assim em troca de um reajuste salarial exige-se a multiplicação dos ‘resultados do trabalho’, o que por sua vez tende a fazer aumentar a miserabilidade objetiva dos que necessitam vender sua força de trabalho para sobreviver, o esgotamento do empregado no ato da produção torna-se uma imposição do capitalista sobre o trabalhador, aumenta-se substancialmente a miséria humana. Sobem os salários, mas sobem também os preços das mercadorias, tudo é comprado com trabalho, mas justamente o trabalhador despossuido de meios de produção, mesmo sendo a fonte finita de trabalho, só pode comprar o mínimo para sua existência animal-natural.

O trabalhador embora em condição de subalternização é também sujeito ativo no processo de coisificação de si mesmo. Para Marx o ser humano é sempre sujeito em suas múltiplas relações sociais, mesmo que esteja em condição de subalternização. Este é protagonista central na produção de um mundo objetivo social geral, como síntese de múltiplas determinações e externalizações, que se voltam contra o trabalhador despossuido, realidade estranha que se fortalece cada dia mais, a cada ato do seres humanos não-proprietário, mas que trabalham durante toda sua vida. No capitalismo acontece uma forma de apropriação (e usufruto) individual da mais-valia produzida socialmente. Desta forma, o trabalhador produz uma série de objetos dos quais não pode apropria-se e fazer uso, pois produz em beneficio de outro que não ele.

O trabalhador ao conferir materialidade humanizada e útil aos produtos, ao empregar seu saber fazer em forma vendáveis, em fim, ao objetivar seu trabalho em troca de sua existência física-natural como trabalho eminentemente humano, como o faz para outro, alienando-se qualitativamente e quantitativamente dos resultados, torna-se dependente e servo do produto originário de seu trabalho. A ‘criatura’ constituída por habilidades humanas fixou em si objetivações humanas (mercadoria), e agora sob domínio de outro que não o trabalhador, sobrepõe-se ao seu ‘criador’. O trabalhador produz objetos que não pode adquirir e consumir, não pode usufruir os frutos de seu próprio trabalho. Produz então para outro que não ele mesmo.

Tanto esses produtos voltam-se contra o trabalhador, como criaturas estranhas, que em várias circunstâncias e períodos histórico-sociais o trabalhador é privado inclusive da apropriação de produtos imprescindíveis a manutenção de sua vida como ser natural, compromete-se sua existência física-natural. Este é o ápice da objetivação que se impõe como perda do objeto. “A objetivação tanto aparece como perda do objeto que o trabalhador é despojado dos objetos mais necessários não somente á vida, mas também dos objetos do trabalho”. (p. 81).

O trabalhador é apartado não apenas dos objetos necessários ao exercício de seu trabalho, mas também, ao mesmo tempo, de sua capacidade física-corpórea adquirida, de produzir coisas, que no ato empregatório, em troca de salário, passa a pertencer a outro fora de si. O trabalhador torna-se um objeto expropriado do sujeito que trabalha, uma vez que suas capacidades no ato da produção não lhe pertencem. (Coloca-se a questão o que fazer para que os produtos de meu trabalhão me pertençam de fato?).

Por meio de tal problematização, Marx destaca no 1º manuscrito de Paris que quanto mais o trabalhador produz, mais tem que se entregar ao capital, e alienar-se de capacidades naturalmente suas, entrega-as ao possuidor de meios de produção. Estes produtos, em posse do capitalista (comercializador), passam a ser cerceados por lojas, catálogos, vitrines e embalagens, comerciai e crediários, faz-se com que todos estes produtos da industriozidade humana encenem no mundo social de forma independente do trabalhador, são apresentados como produtos oriundos de marcas e slogans, e não de trabalho humano, fantasia-se a forma produto sem os produtores, produtos com origem mistificada que hostilizam seres humanos destituídos de poder de compra. Mesmo que se tenha poder produtivo-fabricador não se tem o poder de aquisição necessário para a fruição.

Ora, então em período de ‘pleno emprego dos fatores de produção’ e de prosperidade social, em que os trabalhadores produzem em grandes quantidades não figura como momento de maior liberdade e felicidade para o trabalhador, nem no ato da produção e nem como consumidores, pois quanto mais se produz menos se poderá comprar, mais poderoso se torna o mundo das coisas e mais pobre se torna o ser humano, e a inda nesse processo social complexo o trabalhador pertence cada vez menos a si mesmo. O mundo alheio e ofensivo é criado, recriado e expandido pelo próprio trabalhador subalternizado aos desejos e necessidades dos detentores dos meios de produção e do domínio social.

Assim, quanto mais necessita de um emprego para manter-se vivo, mais dependente do burguês o trabalhador se torna. O trabalhador torna-se cada vez mais pobre, cada vez menos dono de seu corpo, de suas vontades, e da realização de suas múltiplas necessidades. É empobrecido objetivamente, pois foi apartado do produto de sua objetivação, e também é empobrecido por não poder utilizar suas capacidades industriosas para si mesmo da forma como deseja e necessita. Esta capacidade no capitalismo não lhe pertence, foi-lhe roubada, suas capacidades pertencem a outro que não ele.

O trabalhador dedica sua vida, sua existência a produção de objetos que ficam sob poder de outro, produz milhares de carros ao longo de sua vida, mas não pode possuir nenhum, produz palácios e mansões, mas é forçado a morar em favelas e COHABs, ao longo de uma vida de trabalho continua cotidianamente a receber em troca de seu trabalho apenas o indispensável a manutenção de sua vida; para que coma beba e procrie, com isso uma multiplicidade de seus desejos e necessidades sócio-históricas são frustradas. Porém a culpa de tal participação nos resultados do que produz recai apenas sob o trabalhador, e não sob a divisão social do trabalho e sob as formas de apropriação dos frutos do trabalho social.

Perde o produto acabado, e com ele perde também todo o trabalho objetivado que se vai junto com a mercadoria. Uma vez objetivado o produto do trabalho entra na esfera da circulação e do comércio assume formas fantasmagóricas, autônomas em relação ao produtor, autonomia sempre hostil que se volta contra o trabalhador. O trabalhador é despossuido de capital necessário para fruir dos produtos produzidos socialmente o trabalhador trabalha, mas não acumula trabalho, quem acumula trabalho em forma de capital é o capitalista, que se torna cada vez mais proprietário das capacidades produtivas do trabalhadores.

A mercadoria, em posse do capitalista, passa a existir fora do trabalhador e independente dele e de suas vontades, desejos e necessidades. A mercadoria torna-se uma potencia social autônoma diante dos despossuidos de capitais. Esta figura atua como forma de existência independente que vem se relacionar com os seres humanos. A esfera da produção e do consumo são hierarquizadas, os trabalhadores mesmo produzindo produtos de primeiro escalão (bens de consumo duráveis e bens de produção) não podem consumi-los, adentram a esfera de consumo de forma subalternizada.

A economia política desconsidera que o trabalhador trabalha para realizar desejos e necessidades humano-sociais históricas e múltiplas, concebendo como natural e funcional que o trabalhador satisfaça por meio do aluguel de suas capacidades e de sua vida, apenas o essencial a sua existência animal-natural, ou seja, apenas enquanto produtor de mercadorias. A Economia Política entende o trabalho humano como produto da produção e não do trabalhador.

O ser que se apropria do trabalho objetivado é outro ser humano estranho ao trabalhador, relaciona-se com ele como inimigo, poderoso, independente dele, é senhor do objeto e de seu produtor (o ser humano que vive da venda de sua força de trabalho). Esta põem-se como “atividade não-livre (...) atividade a serviço de, sob domínio, a violência e julgo de outro homem”. (p. 87). A produção e reprodução da vida põem-se como castigo histórico hereditário e imutável na ordenação do capital, uma repetição cansativa e monótona.

Ainda, o produto do trabalho que se volta contra o ser humano é apenas o resumo do processo produtivo, fora este tem-se ainda uma série de outras conseqüências negativas da produção capitalista, sendo a principal o estranhamento (entfremdung) . Este não se restringe ao objeto (sujeito-objeto) produzido ou ao ato da produção, mas se estende também as relações sociometabólicas, outros seres humanos passam também a ser vistos como estranhos, como inimigos a seres subalternizados (p. 87).

Porém para Marx é verdadeiro afirmar que todas as formas de opressão social têm por base a opressão no local de trabalho, o mandonismo do capitalista sob o trabalhador, tais relações difundem-se na sociedade do salariato, para o trabalho e para o não-trabalho e para as formas de lazer. As formas de opressão geral são projeções e extensões desta que se desenvolvem e se disseminam a partir das relações fundamentais primeiras, ou seja, a base de todas as formas de opressão são as quatro formas de estranhamento.

O possuidor de meios de produção (o não-trabalhador) “faz contra o trabalhador tudo o que o trabalhador faz contra si mesmo”. Nesse sentido o possuidor é co-autor da miséria sócio-histórica do trabalhador despossuido dos meios de produção. Porem, o possuidor de meios de produção, o burguês, acaba também, em determinada medida, ficando relativamente exposto aos elementos da barbárie social que ele mesmo cria, uma vez que se trata do mesmo mundo social de classes. Uma totalidade social que se estranha.

Porém, o capitalista, “não faz contra si mesmo o que faz contra o trabalhador” (p. 90). O capitalista não é, como no caso do trabalhador, totalmente privado de desenvolver suas potencialidades, não é obrigado a uma forma de desenvolvimento social determinada, muito unilateral e maquinal, também não é reduzido às carências de sua barriga e a uma atividade abstrata que lhe consome a maior parte de seu tempo de vida.

8 comentários:

Vera disse...

Muito bom esse artigo. Define muito bem a alienação do trablhador que não se reconhece mais como classe, mas se julga por status, esquecendo da sua situação de trabalhador assalariado.Estratégia do sistema capitalista.

Lari*~ disse...

Muito bom artigo. Não seja modesto, não se trata de um rascunho para uma resenha, mas sim uma ótima resenha.

Paulo Rico disse...

Texto bem escrito e claro. Ótima resenha!

Karen Galúcio disse...

Achei excelente a sua resenha. Completa e legível . Muito obrigada! (:
Foi de ótima ajuda.

Dilson DiOliveira disse...

Muito bom o trabalho, sem rebuscamento e bastante elucidativa.

Dilson DiOliveira disse...

Muito bom o trabalho, sem rebuscamento e bastante elucidativa.

Maria disse...

Muito bom seu trabalho, me ajudou batente.

Ingrid MF disse...

Ótima a resenha, salvou minha vida. Obrigada!

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